Em Chavantes, a gestante conhece a maternidade antes do parto
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Humberto Tobé, Fátima Christine

Pequena cidade da região de Ourinhos leva o pré-natal para dentro da Santa Casa e põe em prática um direito garantido pelo SUS: a vinculação da mãe ao local onde o bebê vai nascer

Uma das maiores angústias de uma gestante é não saber onde vai dar à luz. Em muitos lugares do país, a mulher entra em trabalho de parto e só então descobre se haverá vaga, às vezes depois de passar por mais de um hospital. Em Chavantes, município de cerca de 12 mil habitantes na região de Ourinhos, a lógica foi invertida. Desde 2021, o pré-natal das moradoras é feito dentro da própria Santa Casa, o mesmo lugar onde o parto vai acontecer.

A proposta é simples e tem efeito grande. Ao frequentar o hospital durante a gestação, a mulher conhece a equipe, o ambiente e o caminho que vai fazer no dia do parto. Os profissionais, por sua vez, acompanham a gestação de perto e conseguem identificar cedo sinais de complicação. “É importante que se abram as portas das maternidades durante a gestação”, resumiu uma médica obstetra da rede da Santa Casa ao comentar o modelo.

A ideia está alinhada a um direito previsto em lei federal desde 2007. A Lei 11.634 garante à gestante atendida pelo SUS o direito de conhecer, ainda no pré-natal, a maternidade onde será atendida no parto, e de ser vinculada a ela antes do parto. A vinculação é um dos pilares da Rede Alyne, estratégia do Ministério da Saúde lançada em 2024 para organizar o cuidado materno e infantil no país.

A Rede Alyne nasceu com metas ambiciosas: reduzir a mortalidade materna em 25% até 2027, e em 50% entre as mulheres pretas. Para chegar lá, a estratégia elevou de R$ 55 para R$ 144 o valor repassado por gestante para os exames de pré-natal e incluiu testes rápidos para HTLV e hepatites B e C. O raciocínio por trás dos números é conhecido dos especialistas: a maior parte das mortes maternas no Brasil é evitável, e evitá-las depende de pré-natal bem-feito e de um caminho claro até o parto.

O nome da estratégia carrega essa lição. Alyne Pimentel morreu em 2002, grávida de seis meses, depois de não receber atendimento adequado na Baixada Fluminense. O caso levou o Brasil a ser condenado por um comitê internacional de direitos humanos por morte materna evitável.

Em cidades pequenas como Chavantes, a distância entre a unidade básica e a maternidade pode ser curta no mapa, mas longa na organização. Quando os serviços não conversam, a gestante fica no meio do caminho, com exames que não chegam ao obstetra e um parto que vira improviso. Juntar as duas pontas, como faz a Santa Casa local, encurta esse percurso.

Para a região de Ourinhos, o exemplo mostra que a qualidade do cuidado materno não depende só do tamanho da cidade. Depende de uma rede que acompanhe a mulher do primeiro exame ao primeiro dia do bebê. É esse desenho que o SUS propõe em nível nacional, e que os municípios do interior podem colocar em prática com as ferramentas e os recursos que a Rede Alyne oferece.

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