Humberto Tobé, Fátima Christine
Cidade que forma profissionais e atende pacientes de toda a região tem no Padi Brasil uma ferramenta para alcançar idosos restritos ao domicílio
Marília, com 237.627 habitantes segundo o Censo 2022, é uma das principais referências em saúde do centro-oeste paulista. A cidade abriga uma faculdade pública de medicina e um complexo hospitalar que recebe pacientes de dezenas de municípios. Ainda assim, existe um grupo de pessoas que essa estrutura tem dificuldade de alcançar: os idosos que não conseguem mais sair de casa.
Para eles, o Ministério da Saúde criou em 2026 o Programa de Atenção Domiciliar à Pessoa Idosa, o Padi Brasil. O programa financia equipes multiprofissionais da Atenção Primária para atender em domicílio pessoas com 60 anos ou mais que convivem com doenças crônicas, perda de autonomia ou comprometimento da memória. A expectativa do Ministério da Saúde é que cerca de 1,5 milhão de idosos em todo o país passem a ter esse acompanhamento.
Em cidades com hospitais de referência, existe um fenômeno conhecido: o idoso recebe alta, volta para casa e, semanas depois, retorna ao hospital com a mesma complicação ou com uma nova. Sem alguém que acompanhe a recuperação, ajuste os remédios e oriente a família, o ciclo se repete. Esse foi justamente o problema que inspirou a criação do programa: a constatação de que idosos sem acompanhamento após a alta acabavam reinternados repetidas vezes.
O Padi Brasil quebra esse ciclo. A equipe vai até a casa, aplica uma avaliação multidimensional com o instrumento IVCF-20 e identifica as fragilidades do idoso: clínicas, funcionais, cognitivas, emocionais, nutricionais e sociais. A partir daí, monta um plano de cuidados com responsáveis definidos e reavaliações periódicas. Familiares e cuidadores recebem orientação para o dia a dia.
A presença de uma escola médica e de uma rede de saúde estruturada dá a Marília condições especiais para fazer do cuidado domiciliar um campo de excelência. A experiência construída na cidade pode gerar protocolos, formar profissionais e servir de referência para os municípios menores da região, que também podem aderir ao programa com apoio financeiro federal.
O incentivo do Governo Federal vai de R$ 5 mil a R$ 10 mil mensais adicionais por equipe, além de uma parcela única de implantação. A adesão é feita pelo e-Gestor, e o município precisa garantir veículo para as visitas e registro regular dos atendimentos.
Sem atenção domiciliar organizada, a conta recai sobre os hospitais e, principalmente, sobre os próprios idosos. Leitos de referência, que deveriam atender casos de alta complexidade de toda a região, acabam ocupados por complicações que poderiam ter sido evitadas em casa. Cada vaga ocupada assim é uma vaga a menos para o paciente que chega de outra cidade em situação crítica.
E há o custo humano: idosos que passam semanas internados, perdem massa muscular, ficam confusos e, muitas vezes, nunca recuperam a autonomia que tinham antes. Para quem depende exclusivamente do SUS, como 80% dos idosos brasileiros, não existe alternativa privada que preencha essa lacuna.
Para Marília e para a região, o Padi Brasil é a peça que faltava para conectar a força hospitalar da cidade ao cuidado contínuo dentro das casas.