Humberto Tobé, Fátima Christine
Pequeno município do Noroeste Paulista está entre os primeiros do estado a receber incentivo federal do Padi Brasil
Vitória Brasil tem 1.794 moradores, segundo o Censo 2022. É um dos menores municípios de São Paulo, no extremo noroeste do estado, a centenas de quilômetros da capital. Mesmo assim, em junho de 2026, o nome da cidade apareceu ao lado de metrópoles como Guarulhos e Sorocaba na primeira lista de municípios paulistas credenciados no Programa de Atenção Domiciliar à Pessoa Idosa, o Padi Brasil.
A Portaria GM/MS nº 11.609 garantiu ao município o incentivo federal para uma equipe multiprofissional (eMulti) na modalidade Estratégica: R$ 5 mil mensais adicionais, além de uma parcela única de implantação de igual valor. Para uma cidade desse porte, o recurso faz diferença real no orçamento da saúde.
Em municípios pequenos do interior, o desafio do cuidado ao idoso tem características próprias. A população costuma ser mais envelhecida, já que muitos jovens se mudam para estudar e trabalhar em cidades maiores. Os idosos que ficam frequentemente moram sozinhos ou com o cônjuge, também idoso. E os serviços especializados ficam em cidades-polo, a dezenas ou centenas de quilômetros.
Nesse contexto, uma pessoa idosa que perde a capacidade de se locomover corre o risco de ficar completamente desassistida. Sem transporte, sem família próxima e sem uma equipe que vá até ela, problemas simples, como uma pressão descontrolada, uma desidratação ou uma infecção urinária, podem evoluir até uma emergência que exige transferência de ambulância para um hospital distante.
O Padi Brasil foi desenhado para mudar essa realidade. A equipe vai até a residência e avalia o idoso por inteiro: doenças, medicamentos, capacidade funcional, memória, humor, alimentação, condições da casa e rede de apoio. A partir dessa avaliação, constrói um plano de cuidados individual, orienta familiares e cuidadores e articula o atendimento com os demais serviços do SUS quando necessário.
O programa também exige que o município tenha um veículo próprio para as visitas, cadastrado no sistema nacional e identificado com a marca da Atenção Primária. Em uma cidade rural, isso significa que a equipe consegue chegar também aos sítios e propriedades mais afastadas.
O Noroeste Paulista é formado em grande parte por municípios pequenos, com perfil parecido com o de Vitória Brasil. Por isso, a experiência da cidade tem valor que vai além de seus limites. Ela demonstra que o programa não é exclusivo dos grandes centros e que, com a adesão ao incentivo federal, até o menor dos municípios consegue estruturar um cuidado domiciliar organizado e permanente.
Também mostra o papel do Governo Federal em reduzir desigualdades. Sozinha, uma cidade de menos de 2 mil habitantes dificilmente conseguiria manter uma equipe multiprofissional dedicada a visitas domiciliares. Com o cofinanciamento do Ministério da Saúde, isso se torna viável.
No Brasil, 80% das pessoas idosas dependem exclusivamente do SUS. No interior, esse número tende a ser ainda mais decisivo, porque a oferta de planos de saúde e de serviços privados é pequena ou inexistente. Para o idoso acamado de uma cidade como Vitória Brasil, não existe plano B: se o SUS não chegar até ele, ninguém chega.
É por isso que o Padi Brasil importa. Ele garante que viver longe dos grandes centros não signifique envelhecer sem cuidado.
Referências
BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 9.584, de 22 de dezembro de 2025. Institui o Programa de Atenção Domiciliar à Pessoa Idosa (Padi) e estabelece critérios para o repasse de incentivo financeiro adicional às equipes Multiprofissionais na Atenção Primária à Saúde (eMulti). Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 23 dez. 2025. Disponível em: https://www.in.gov.br/web/dou/-/portaria-gm/ms-n-9.584-de-22-de-dezembro-de-2025-677630929.