O câncer é um dos principais desafios de saúde pública no Brasil. Excluídos os tumores de pele não melanoma, são esperados cerca de 518 mil novos casos da doença por ano no triênio de 2026 a 2028, segundo estimativa do Instituto Nacional de Câncer (INCA). Nesse grupo, dois tumores do aparelho digestivo chamam atenção pela frequência: os cânceres de cólon e reto representam 10,4% das ocorrências, enquanto o de estômago responde por 4,4%.
Em números absolutos, são esperados 53.810 novos casos de câncer de cólon e reto por ano, o que coloca esse grupo de tumores na terceira posição entre os mais frequentes do país, sem considerar o câncer de pele não melanoma. Já para o câncer de estômago, a estimativa é de 22.530 novos diagnósticos anuais, fazendo com que a doença ocupe a quinta posição entre os tipos mais incidentes.
O impacto desses tumores também pode ser visto nas estatísticas de mortalidade. Em 2024, foram registradas 26.180 mortes por câncer colorretal no Brasil, segundo o INCA, enquanto 14.917 pessoas morreram em decorrência do câncer de estômago. Os números reforçam a importância da prevenção e, principalmente, da identificação da doença em fases iniciais, com atenção aos sinais de alerta e busca por investigação médica diante de alterações persistentes.
Pequenas mudanças no funcionamento do intestino precisam ser investigadas
Qualquer mudança no padrão habitual das fezes já deve ser um sinal de atenção, conforme destaca a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC). Sangramento nas fezes, constipação que surge de forma repentina ou episódios de diarreia que não faziam parte da rotina intestinal não devem ser ignorados, independentemente da idade.
Essas alterações precisam ser avaliadas por um médico, que pode solicitar uma colonoscopia para investigar a causa. O exame permite visualizar diretamente o cólon e o reto, além de identificar alterações, realizar biópsias e retirar pólipos durante o procedimento quando necessário.
Mas, antes mesmo de pensar em quais os sintomas para fazer colonoscopia, é importante entender que a investigação do câncer colorretal não se restringe a quem já apresenta sinais da doença. Como alterações iniciais podem ser discretas ou passar despercebidas, o rastreamento busca encontrar pólipos e tumores em pessoas que ainda não desenvolveram sintomas.
A Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) recomenda que pessoas sem fatores adicionais de risco iniciem o rastreamento com colonoscopia aos 45 anos. Quando o exame é normal, o intervalo pode chegar a dez anos. Para quem tem parentes de primeiro grau que tiveram câncer colorretal, a investigação pode começar aos 40 anos ou dez anos antes da idade em que o familiar mais jovem recebeu o diagnóstico.
Câncer de estômago pode começar com sinais pouco específicos
Para o câncer gástrico, o INCA não recomenda atualmente um programa de rastreamento populacional periódico em pessoas sem sintomas. O caminho para a detecção precoce passa principalmente pela investigação de alterações suspeitas.
Nas fases iniciais, no entanto, a doença pode não causar sintomas ou provocar manifestações semelhantes às de problemas comuns, como gastrite e úlcera, conforme explica a instituição. Perda de peso sem explicação, redução do apetite, cansaço, sensação frequente de estômago cheio, náuseas, vômitos e desconforto na parte superior do abdômen são sinais que merecem atenção.
O principal exame utilizado na investigação é a endoscopia digestiva alta, que permite observar o esôfago e o estômago e coletar amostras para biópsia diante de uma alteração suspeita. Quando o câncer é confirmado, outros exames podem ser solicitados para avaliar a extensão da doença.
Entre eles está o exame de ecoendoscopia alta, que combina a endoscopia com a ultrassonografia. De acordo com informações da Rede D’Or São Luiz, o método permite avaliar com mais detalhes as camadas das paredes do esôfago, do estômago e do duodeno, além de estruturas próximas, como linfonodos e pâncreas. O procedimento também pode ser utilizado no estadiamento de tumores e para orientar punções de massas ou linfonodos suspeitos.
SUS também passa a adotar FIT no rastreamento do câncer colorretal
Em maio deste ano, o Ministério da Saúde anunciou um novo protocolo nacional para o rastreamento do câncer colorretal no Sistema Único de Saúde (SUS). O Teste Imunoquímico Fecal, conhecido pela sigla FIT, passou a ser o exame de referência para homens e mulheres assintomáticos de 50 a 75 anos e pode ampliar o acesso de mais de 40 milhões de brasileiros à prevenção e à detecção precoce da doença.
O FIT identifica pequenas quantidades de sangue nas fezes que não são visíveis a olho nu e podem estar relacionadas a pólipos, lesões pré-cancerígenas ou tumores. Segundo o Ministério da Saúde, sua sensibilidade varia entre 85% e 92%. A coleta pode ser feita em casa, não exige preparo intestinal nem dieta restritiva e utiliza apenas uma amostra.
Quando o resultado aponta a presença de sangue oculto, o paciente é encaminhado para exames complementares. A colonoscopia é considerada o padrão-ouro para a avaliação do intestino, pois permite visualizar diretamente o cólon e o reto e retirar pólipos durante o próprio procedimento, antes que algumas dessas lesões evoluam para câncer.
Alimentação e bons hábitos precisam estar nas estratégias de prevenção
A atenção aos cânceres de intestino e estômago também passa por medidas que ajudam a reduzir o risco de desenvolvimento da doença. Entre elas, a alimentação é uma das mais importantes.
No caso do câncer colorretal, mudanças no padrão alimentar podem estar relacionadas ao aumento de ocorrências, inclusive entre pessoas mais jovens. A presidente da SBOC, Anelisa Coutinho, explica que os estudos ainda estão em andamento para definir as causas desse crescimento, mas aponta que as transformações nos hábitos alimentares podem ter contribuído, como o aumento do consumo de alimentos industrializados e processados.
A alimentação também é um ponto de atenção na prevenção do câncer de estômago. O INCA relaciona o risco da doença ao consumo excessivo de sal e de alimentos salgados ou conservados dessa forma.
Outros fatores podem aumentar o risco de câncer gástrico, incluindo exposições ocupacionais prolongadas. Segundo o INCA, atividades relacionadas à indústria da borracha, produção de vidro, oficinas mecânicas, postos de combustíveis e transporte podem envolver contato com substâncias associadas à doença. A exposição à radiação e ao amianto também aparece entre os riscos relacionados a determinados ambientes de trabalho.
A infecção pela bactéria Helicobacter pylori também está entre os principais fatores associados ao câncer de estômago. O INCA aponta ainda que condições de trabalho com pouca higiene ou falta de água potável podem favorecer situações relacionadas à infecção, ampliando a atenção para fatores que vão além da alimentação.
Alguns cuidados, por outro lado, são importantes para a prevenção dos dois tipos de câncer. Manter o peso corporal adequado, praticar atividade física regularmente, evitar bebidas alcoólicas e não fumar estão entre os hábitos recomendados para reduzir fatores de risco associados às doenças.
Quando prevenção, atenção aos sinais e acesso aos exames indicados caminham juntos, aumentam as possibilidades de identificar alterações antes que a doença avance. Diante de tumores que podem começar de forma silenciosa ou apresentar sintomas facilmente confundidos com problemas comuns, deixar a investigação para depois pode significar perder um período importante para o diagnóstico precoce.