Há notícias que chegam e mudam
alguma coisa dentro de nós antes mesmo que consigamos compreender exatamente o
que está acontecendo. O diagnóstico de câncer é uma delas. Para muitas
mulheres, ouvir essa palavra no consultório médico não representa apenas a
descoberta de uma doença, mas o início de uma ruptura na história que vinham
construindo sobre si mesmas. Até aquele momento, havia uma rotina, uma família,
um trabalho, relacionamentos, projetos, viagens, desejos e uma determinada
maneira de olhar para o próprio corpo. O futuro, mesmo com suas incertezas,
podia ser imaginado com alguma naturalidade. Depois do diagnóstico, entretanto,
esse futuro passa a ser acompanhado por exames, consultas, tratamentos e
perguntas para as quais nem sempre existem respostas imediatas.
É evidente que o câncer é, antes
de tudo, uma questão médica e precisa ser tratado como tal, com diagnóstico
adequado, acompanhamento especializado e todas as possibilidades terapêuticas
indicadas para cada caso.
Existe, porém, uma dimensão dessa
experiência que não aparece nos exames, nas imagens ou nos prontuários: aquilo
que acontece dentro da pessoa quando ela percebe que seu corpo, até então
vivido como algo familiar, tornou-se também fonte de preocupação. É justamente
nesse ponto que acredito que precisamos falar mais sobre a dimensão emocional
do câncer, não para transformar a doença em um problema psicológico, muito
menos para sugerir que conflitos ou sentimentos sejam responsáveis pelo seu
aparecimento, mas para compreender que uma doença pode atingir o corpo e,
ao mesmo tempo, provocar profundas repercussões na maneira como alguém percebe
a si mesma e a própria vida.
Na clínica, aprendemos que
o corpo humano nunca é somente biológico. Ele também é memória,
identidade, desejo, sexualidade e imagem.
É por meio dele que nos
apresentamos ao mundo e construímos uma parte importante da nossa autoestima e
das nossas relações. Por isso, quando o câncer modifica esse corpo, a
transformação pode ultrapassar aquilo que é visível. Uma cirurgia, uma
cicatriz, a queda dos cabelos, alterações no peso, mudanças hormonais, perda ou
redução da fertilidade e modificações na sexualidade podem fazer com que uma
mulher olhe para si mesma e, durante algum tempo, não consiga se reconhecer
completamente.
Enquanto a medicina procura
respostas para tratar a doença, existe uma mulher tentando compreender como
continuará vivendo dentro daquele corpo que, de alguma maneira, passou a ser
percebido de forma diferente.
É justamente por isso que me
incomoda a expectativa de que a mulher diagnosticada precise imediatamente
assumir o papel da “guerreira”, daquela que deve demonstrar força, coragem e
otimismo o tempo inteiro. É uma imagem que pode funcionar bem em campanhas de
conscientização, mas a vida real é muito mais complexa.
Há dias em que essa mulher poderá
se sentir forte e esperançosa; em outros, poderá sentir medo, raiva, tristeza,
insegurança ou simplesmente vontade de se afastar de tudo aquilo por algumas
horas. Ela precisa ter o direito de sentir essas coisas sem que isso seja
interpretado como fraqueza.
Não existe uma maneira
emocionalmente correta de viver o câncer, porque cada mulher chega ao
diagnóstico carregando uma história diferente, com suas experiências, relações,
perdas, desejos, medos e maneiras próprias de enfrentar situações difíceis.
Também precisamos compreender que
o diagnóstico pode desencadear um processo de luto.
Quando falamos em luto,
normalmente pensamos na perda de alguém, mas a experiência humana também produz
lutos diante de perdas simbólicas. Uma mulher pode precisar elaborar a perda de
uma determinada imagem corporal, de uma rotina, de uma sensação de segurança,
de projetos que precisaram ser adiados ou modificados e até mesmo da fantasia
de que seu corpo permaneceria sob seu controle.
O Portal Drauzio Varella (https://drauziovarella.uol.com.br)
chama atenção justamente para essa dimensão da jornada do câncer, mostrando que
sentimentos como medo, tristeza, raiva e culpa podem aparecer diante das
mudanças provocadas pela doença e pelo tratamento.
Esse processo, entretanto, não
acontece de maneira linear. Uma mulher pode estar esperançosa pela manhã e
desesperada à noite; pode conversar tranquilamente com os filhos e chorar
sozinha depois; pode querer falar sobre o câncer em determinado momento e desejar
esquecer completamente o assunto algumas horas mais tarde.
Essas aparentes contradições não
significam necessariamente que ela esteja emocionalmente desorganizada. Muitas
vezes, significam apenas que está tentando elaborar uma experiência que
modificou profundamente sua percepção de segurança e de futuro. O ser
humano não funciona como uma máquina que recebe uma informação, processa e
rapidamente encontra uma resposta definitiva. Precisamos de tempo para
compreender aquilo que nos acontece.
O diagnóstico também pode atingir
profundamente a imagem que construímos de nós mesmos. Freud nos ajuda a pensar
sobre isso quando aborda o narcisismo, não no sentido popular de vaidade ou
egocentrismo, mas como o investimento que fazemos em nosso próprio corpo, em
nossa imagem e naquilo que sentimos ser. Todos sabemos racionalmente que
podemos adoecer, mas no cotidiano costumamos viver como se o amanhã fosse uma
continuação relativamente segura do hoje.
O câncer pode romper essa
fantasia de continuidade e colocar a pessoa diante de uma vulnerabilidade que,
até então, podia permanecer distante. O corpo deixa de ser algo que
simplesmente funciona e passa a exigir atenção constante, e essa mudança pode
produzir uma angústia profunda.
É importante, entretanto, fazer
uma distinção que considero fundamental. Compreender o sofrimento
psíquico provocado pelo câncer é muito diferente de afirmar que emoções
reprimidas, conflitos ou características da personalidade provocaram a doença.
Não considero correto utilizar a
psicanálise para produzir culpa em alguém que já está enfrentando uma situação
tão delicada. O sofrimento não deve ser transformado em responsabilidade pelo
adoecimento. Uma coisa é compreender como a pessoa reage emocionalmente depois
de receber um diagnóstico; outra, completamente diferente, é atribuir a ela a
causa de sua doença. A própria literatura médica não sustenta uma interpretação
simplista desse tipo, e acredito que a psicanálise deve servir para ampliar a
compreensão, nunca para culpabilizar.
Existe ainda um outro risco:
depois do diagnóstico, a mulher pode desaparecer atrás da condição de paciente.
A rotina passa a ser organizada pelos exames, medicamentos, consultas e
resultados, e pouco a pouco tudo parece girar em torno da doença. É compreensível
que isso aconteça
durante o tratamento, mas, subjetivamente, ela continua sendo muito mais do que
aquilo que está acontecendo com seu corpo. Continua sendo mãe, filha,
companheira, profissional, amiga, mulher que deseja, que sonha, que
sente raiva, que faz planos e que possui uma história que começou muito antes
do câncer.
Uma reportagem publicada pelo
Estadão (https://www.estadao.com.br) sobre
a vida para além do consultório também chama atenção para essa necessidade de
olhar para a pessoa que existe para além do tratamento.
É nesse espaço que vejo uma
contribuição importante da psicanálise. Não para explicar o câncer, prometer
cura ou substituir o acompanhamento médico, mas para oferecer um lugar onde a
mulher possa falar sobre aquilo que talvez não consiga dizer para ninguém.
Ela pode falar sobre o medo da
morte, a raiva de ter adoecido, a vergonha diante do próprio corpo, a
dificuldade de se sentir desejada, o medo de perder o companheiro, a
preocupação com os filhos, a sensação de ter perdido o controle ou até mesmo
sobre a vontade de continuar vivendo normalmente sem precisar pensar o tempo
inteiro na doença.
Na minha
compreensão, escutar é diferente de oferecer respostas prontas. Muitas vezes, a
pessoa não precisa que alguém diga que “vai ficar tudo bem”; ela precisa
encontrar um espaço onde possa dizer que, naquele momento, não sabe se ficará
tudo bem.
Talvez seja justamente essa a
questão que mais merece nossa atenção: depois do diagnóstico, ainda existe uma
mulher. O câncer pode interromper uma narrativa, modificar planos, provocar
perdas e deixar marcas profundas, mas não precisa ser o último capítulo da
história.
Isso não significa romantizar a
doença ou afirmar que toda experiência difícil necessariamente produz
transformação. Algumas experiências simplesmente são dolorosas, e precisam ser
reconhecidas como tais. O que pode existir, depois da ruptura, é a possibilidade
de reconstruir uma narrativa que faça sentido para aquela pessoa, respeitando
as marcas, os medos e as perdas, mas também aquilo que permaneceu vivo.
Como psicanalista, penso que uma
das tarefas mais importantes nesse momento é ajudar a mulher a não desaparecer
atrás do diagnóstico. Ela não é o câncer, não é a cicatriz, não é o resultado
de um exame e não pode ser reduzida à condição de paciente. Ela é uma mulher
cuja história foi atravessada por uma doença e existe uma diferença enorme
entre essas duas coisas. Talvez não seja possível voltar exatamente à mulher
que existia antes do diagnóstico, e talvez nem seja necessário. O que pode
existir é uma nova maneira de se reconhecer, levando consigo aquilo que
aconteceu e encontrando novamente espaço para o desejo, para os vínculos, para
os projetos e para a própria vida.
No final, talvez a questão
mais profunda não seja simplesmente perguntar como vencer o câncer, mas como
continuar sendo sujeito da própria vida depois que ele entrou nela.
É nesse ponto que a escuta se
torna tão necessária. (peça ajuda)
Quando uma doença rasga a
narrativa que alguém vinha construindo sobre si mesma, talvez o primeiro passo
não seja tentar escrever imediatamente uma nova história. Talvez seja
simplesmente permitir que essa mulher possa contar, com suas próprias palavras,
aquilo que aconteceu, aquilo que perdeu, aquilo que teme e aquilo que ainda
deseja. E, sobretudo, que encontre alguém disposto a verdadeiramente escutá-la.