Entre serras e bairros rurais, Bragança Paulista tem no Padi Brasil o caminho para chegar até os idosos que não saem de casa
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Humberto Tobé, Fátima Christine

Programa federal financia equipes multiprofissionais para atendimento domiciliar e pode encurtar distâncias na macrorregião da Mantiqueira

Na macrorregião da Mantiqueira, a geografia faz parte do desafio da saúde. Estradas sinuosas, bairros rurais espalhados e casas afastadas dos centros urbanos tornam a ida a uma consulta uma tarefa complicada para muita gente. Para o idoso com dificuldade de locomoção, pode ser impossível. Em Bragança Paulista, um dos principais polos da região, com 176.811 habitantes segundo o Censo 2022, essa realidade convive com uma população que envelhece ano após ano.

É nesse contexto que ganha importância o Programa de Atenção Domiciliar à Pessoa Idosa, o Padi Brasil, lançado pelo Ministério da Saúde em junho de 2026. O programa financia equipes multiprofissionais da Atenção Primária para visitar e acompanhar em casa pessoas com 60 anos ou mais que estão restritas ao domicílio.

O Padi Brasil não se resume a uma visita médica eventual. A equipe, que pode reunir profissionais como enfermeiro, fisioterapeuta, nutricionista, psicólogo, assistente social e médico, realiza uma avaliação multidimensional da pessoa idosa, com o instrumento IVCF-20, integrado ao prontuário eletrônico do SUS. A avaliação identifica o grau de fragilidade e os riscos específicos de cada caso.

A partir dela, é construído um plano de cuidados com objetivos, responsáveis e frequência de acompanhamento. Familiares e cuidadores aprendem a lidar com medicamentos, alimentação, mobilidade e prevenção de feridas. Se o quadro piorar, a equipe articula o atendimento com a rede especializada do SUS.

O Governo Federal repassa ao município um incentivo mensal adicional de R$ 5 mil a R$ 10 mil por equipe, conforme a modalidade, além de uma parcela única para a implantação. A exigência de um veículo próprio para as visitas é especialmente relevante em uma região como a Mantiqueira: é ele que permite à equipe chegar aos bairros rurais e às casas mais isoladas.

Bragança Paulista concentra serviços de saúde que atendem municípios vizinhos menores, muitos deles com população rural significativa. Quando o polo regional estrutura um modelo de cuidado domiciliar, ele cria uma referência para os municípios do entorno e reduz a chegada de casos graves aos seus hospitais. O idoso que é acompanhado em casa tem menos chance de precisar de uma transferência de urgência por estradas de serra.

Na zona rural, o isolamento do idoso tem um peso ainda maior. Sem vizinhos próximos, sem transporte público frequente e, muitas vezes, com filhos morando em outras cidades, o idoso frágil pode passar semanas sem contato com qualquer profissional de saúde. Quando algo dá errado, a ajuda demora a chegar.

Sem um programa como o Padi Brasil, esse idoso depende da sorte. Com o programa, passa a ter uma equipe que conhece sua história, acompanha sua evolução e sabe quando é preciso agir.

No Brasil, 80% dos idosos dependem exclusivamente do SUS, e a população com 60 anos ou mais no estado de São Paulo cresceu 60,3% entre 2010 e 2022. Para Bragança Paulista e toda a Mantiqueira, o programa federal é a oportunidade de garantir que viver longe dos grandes centros não signifique envelhecer sem cuidado.

Humberto Tobé é Pós-Graduado em Gestão da Saúde Pública, trabalha na interlocução com prefeitos, vereadores, gestores municipais e representantes da área da saúde dos municípios paulistas.

Fatima Crhistine é mestranda em Políticas Públicas pela Universidade Católica de Brasília (UCB), graduada em Economia e Pedagogia, com pós-graduação em Educação Parental e Socioemocional. Servidora Pública Federal cedida da Universidade Federal do ABC para a Secretaria Executiva do Ministério da Saúde.

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