Setembro Amarelo: quando setembro precisa ser apenas o começo
Imagem Pixabay

por Hilda Medeiros

“Meu pai se suicidou. Odiei-o por isso.”

Foi assim que um cliente iniciou uma conversa comigo
recentemente.

Durante anos, ele carregou sentimentos difíceis em relação à
morte do pai. Sentia vergonha, revolta e, sobretudo, abandono. Perguntava-se
como alguém poderia deixar a esposa e um filho daquela maneira. Em muitos
momentos, encontrou uma palavra para explicar o que não conseguia compreender:
fraqueza.

Até que a vida o colocou diante de uma experiência que
jamais imaginou viver.

“Nos últimos meses, tudo parece tão difícil que pensamentos
de partida começaram a passar pela minha cabeça. E eu me pergunto: como isso é
possível, se critiquei tanto meu pai? Eu amo meu filho, ele só tem 3 anos e
precisa de mim. Como posso pensar assim?”

Uma palavra daquela conversa permaneceu comigo: fraco.

Durante boa parte da vida, ele a utilizou para tentar dar
sentido à decisão do pai. Agora, diante do próprio sofrimento, percebia que o
mesmo julgamento poderia se voltar contra ele.

Essa história, preservada em sua identidade e em seus
detalhes pessoais, ajuda a colocar uma questão importante no centro do Setembro
Amarelo: como reagimos quando alguém chega a um nível de sofrimento tão
profundo que começa a considerar a própria morte?

Durante muito tempo, o suicídio esteve cercado por silêncio,
culpa, preconceito e interpretações morais. Ainda hoje, palavras como
“fraqueza” e “egoísmo” aparecem na tentativa de explicar algo que não cabe em
respostas simples.

O comportamento suicida é complexo e pode estar relacionado
a diferentes fatores e circunstâncias. Por isso, talvez uma das primeiras
mudanças necessárias seja substituir julgamentos apressados por escuta, atenção
e encaminhamento para o cuidado adequado.

É justamente aí que o Setembro Amarelo cumpre um papel
importante.

Campanhas de conscientização colocam o assunto em
circulação, ampliam o acesso à informação e podem encorajar pessoas a procurar
ajuda. Também contribuem para romper um silêncio que, durante décadas, tornou o
sofrimento ainda mais solitário.

Mas existe um risco quando concentramos toda essa
mobilização em apenas um mês: acreditar que fizemos o suficiente quando
setembro termina.

O sofrimento não conhece calendário.

Quando o amarelo deixa as fachadas, os cartazes são
retirados e as redes sociais passam para o próximo assunto, as pessoas
continuam enfrentando perdas, conflitos, solidão, doenças, dificuldades
financeiras, pressões profissionais e dores que nem sempre são percebidas por
quem está por perto.

E algumas delas continuam funcionando aparentemente muito
bem.

Nem sempre quem sofre parece estar sofrendo

Talvez ainda tenhamos uma imagem equivocada de como alguém
emocionalmente fragilizado deveria se comportar.

Esperamos sinais evidentes. Uma queda brusca de desempenho.
O isolamento. O choro. O afastamento das atividades cotidianas. Esperamos, de
alguma maneira, que o sofrimento seja visível.

Nem sempre será.

Existem líderes conduzindo equipes, profissionais entregando
resultados, pais cuidando dos filhos e pessoas participando normalmente de reuniões
e compromissos enquanto tentam administrar, em silêncio, algo que já não
conseguem organizar sozinhas.

Continuar funcionando não significa necessariamente estar
bem.

Talvez um dos avanços mais importantes que possamos produzir
a partir do Setembro Amarelo seja justamente aprender a não esperar que alguém
desmorone para reconhecer que precisa de ajuda.

Nas empresas, uma campanha não substitui uma cultura de
cuidado

No ambiente profissional, essa reflexão merece atenção
especial.

Saúde emocional não pode existir apenas no calendário
institucional. Uma palestra pode abrir uma conversa. Uma campanha pode ampliar
a conscientização. Uma ação interna pode oferecer informação. Tudo isso tem
valor.

Mas é o cotidiano que mostrará se existe, de fato, espaço
para alguém dizer: “Eu não estou bem.”

Isso se torna ainda mais delicado quando falamos de
liderança.

Durante muito tempo, construímos uma imagem do líder como
aquele que suporta, resolve, orienta e oferece respostas. Quanto maior a
responsabilidade, maior pode parecer a obrigação de permanecer forte.

Só que nenhum cargo suspende a condição humana.

Um diretor pode sofrer. Um empresário pode chegar ao limite.
Um gestor pode precisar de ajuda. Uma pessoa não se torna emocionalmente
invulnerável porque ocupa uma posição de autoridade.

Quando admitir sofrimento parece incompatível com
competência, pedir ajuda se torna ainda mais difícil.

Por isso, falar de saúde emocional nas organizações exige
algo além de campanhas. Exige ambientes nos quais vulnerabilidade não seja
imediatamente interpretada como incapacidade e nos quais procurar ajuda seja
compreendido como parte do cuidado, e não como sinal de fracasso.

Escutar também é uma forma de prevenção

O mesmo vale para famílias, escolas, grupos de amigos e
relações pessoais.

Prevenção também passa pela maneira como reagimos quando
alguém encontra coragem para dizer que não está bem.

Nossa primeira reação costuma ser tentar resolver. Dar um
conselho. Contar uma experiência parecida. Mostrar o lado positivo. Dizer que
tudo vai passar.

Mas nem toda dor precisa imediatamente de uma resposta.

Algumas precisam, primeiro, ser levadas a sério.

Não precisamos saber exatamente o que dizer, nem assumir um
papel para o qual não estamos preparados. Diante de sinais de sofrimento
intenso ou de falas relacionadas à morte, é fundamental buscar ajuda
profissional e os serviços adequados.

Mas todos nós podemos aprender algo anterior a isso: escutar
sem julgar.

Escutar sem transformar a dor do outro em comparação. Sem
diminuir o que ele sente. Sem recorrer rapidamente a explicações que parecem
confortáveis para quem ouve, mas podem aumentar a culpa de quem sofre.

Quando setembro terminar

Volto, então, à palavra que permaneceu comigo depois daquela
conversa: fraco.

Talvez parte da transformação de que precisamos comece
justamente pela linguagem.

Pela maneira como nomeamos aquilo que não compreendemos.
Pela pressa em julgar uma dor que não sentimos. Pela dificuldade de admitir que
alguém pode estar profundamente ferido e, ainda assim, continuar sendo
competente, responsável, amoroso e forte.

O Setembro Amarelo é necessário porque ilumina um assunto
que permaneceu escondido durante muito tempo. Abre conversas que precisam
acontecer, oferece informação e nos lembra de olhar com mais atenção para quem
está ao nosso lado.

Mas sua maior contribuição não deveria ser ocupar um mês no
calendário.

Deveria ser transformar o que fazemos nos outros onze.

Que setembro nos ensine a conversar sobre o assunto com
responsabilidade, a escutar melhor, a julgar menos e a reconhecer que pedir
ajuda não diminui ninguém.

E, quando o mês terminar, que o amarelo possa sair das
fachadas sem que o cuidado desapareça junto com ele.

Porque prevenção não pode ser uma campanha com data para
acabar.

Setembro precisa ser apenas o começo.

Se você ou alguém próximo estiver em sofrimento emocional ou
com pensamentos de suicídio, procure ajuda profissional. O Centro de
Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188.
Em situações de risco imediato, procure um serviço de emergência.

Artigo de: Hilda Medeiros é educadora executiva, escritora
best-seller e criadora do Método L.E.G.A.D.O. Atua com liderança, educação
emocional e desenvolvimento de líderes em ambientes educacionais e
corporativos.

Encontrou algum erro? Entre em contato