Dia Mundial da Saúde Mental: o futuro chegou antes de estarmos emocionalmente preparados
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Por Hilda Medeiros

Setembro abriu uma conversa necessária
sobre saúde mental, mas, se essa conversa terminar quando o calendário mudar de
mês, teremos perdido justamente a oportunidade de olhar para aquilo que
acontece antes do adoecimento.

No dia 10 de outubro, o mundo volta sua
atenção para o Dia Mundial da Saúde Mental e, diante da velocidade das
transformações que estamos vivendo, está na hora de ampliar a pergunta. Além de
perguntar quantas pessoas estão adoecendo, é nos perguntarmos individual e
coletivamente, o que fazer antes de chegar ao adoecimento mental.

Há uma diferença importante entre falar de
saúde mental e cuidar da saúde emocional. A saúde mental costuma ganhar
visibilidade quando os sinais já estão instalados, quando a ansiedade se
intensifica, quando o esgotamento compromete a rotina, quando dormir deixa de
ser suficiente para recuperar o corpo ou quando aquilo que antes parecia administrável
começa a ultrapassar os recursos internos de uma pessoa.

A saúde emocional nos convida a olhar
antes. Olhar para a forma como lidamos com pressão, frustração, insegurança,
medo, excesso de controle, mudanças e incertezas. Olhar para as histórias
internas que construímos e contamos para nós mesmos diante daquilo que não
conseguimos prever e, principalmente, para a maneira como respondemos
emocionalmente a um mundo que parece mudar antes mesmo que tenhamos
compreendido a mudança anterior.

Esse olhar se torna ainda mais importante
em um momento no qual tecnologia, inteligência artificial, automação e novas
formas de trabalho avançam em uma velocidade sem precedentes.

A tecnologia não é o problema e seria
simplista transformá-la na causa do adoecimento contemporâneo. Ela amplia
possibilidades, democratiza acessos, acelera processos e cria recursos
extraordinários. O ponto que merece atenção é outro: a velocidade com que essas
transformações chegam nem sempre corresponde à velocidade com que conseguimos emocionalmente
assimilá-las.

Enquanto novas ferramentas prometem
facilitar o trabalho, muitos profissionais convivem com a insegurança, se seu
trabalho será assegurado daqui a alguns anos?

Profissões estão sendo redesenhadas,
competências antes valorizadas começam a dividir espaço com outras, tarefas são
automatizadas e conhecimentos que pareciam suficientes passam rapidamente a
exigir atualização.

A ansiedade encontra terreno fértil
justamente nesse espaço entre aquilo que conhecemos e aquilo que ainda não
conseguimos prever, mas gostaríamos de ter controle.

Há mensagens chegando por diferentes
canais, reuniões que se acumulam, decisões que precisam ser tomadas
rapidamente, metas, indicadores, mudanças de rota e uma expectativa crescente
de adaptação. Uma notificação interrompe uma tarefa, outra informação modifica
a prioridade anterior e, antes que o pensamento se organize novamente, uma nova
demanda ocupa aquele espaço.

Quando quase tudo parece urgente e o futuro
parece incerto, o cérebro recebe poucas mensagens de segurança. É nesse
ambiente que a ansiedade pode deixar de ser uma reação pontual e começar a
ocupar um espaço cada vez maior na vida cotidiana.

Por isso, falar sobre saúde mental nas
organizações sem falar sobre saúde emocional é começar a conversa tarde demais.

Prevenção também significa desenvolver
recursos internos para lidar com aquilo que não controlamos, ampliar a
capacidade de reconhecer emoções antes que elas determinem comportamentos,
aprender a diferenciar uma ameaça real de uma antecipação criada pela própria
mente e construir flexibilidade emocional para permanecer inteiro mesmo quando
o cenário muda.

Esse cuidado não elimina desafios, não
interrompe o avanço tecnológico e não torna o futuro previsível, mas transforma
a forma como uma pessoa se posiciona diante dele.

E aqui existe uma responsabilidade
importante para as lideranças.

Não basta preparar profissionais
tecnicamente para as transformações que estão chegando. Será necessário
prepará-los emocionalmente para viver em um ambiente no qual aprender,
desaprender, rever certezas e reconstruir caminhos fará cada vez mais parte da
vida profissional. Lembrando ainda que lideres também adoecem e muitas vezes em
silêncio.

Uma empresa pode investir nas melhores
tecnologias e, ainda assim, perder capacidade de inovação se as pessoas
estiverem tomadas pelo medo de errar.

É por isso que saúde emocional não deveria
ocupar um lugar periférico na estratégia das organizações.

A forma como uma pessoa interpreta pressão,
mudança e incerteza interfere na qualidade das decisões que toma, na maneira
como lidera, na capacidade de se relacionar e até na abertura para aprender
algo novo. Antes que um comportamento apareça, existe um estado interno emocional
que dá sustentação para o mesmo. Os resultados começam muito antes de aparecerem
nas planilhas.

Talvez esse seja um dos grandes desafios
deste momento histórico: a tecnologia continuará avançando e provavelmente fará
isso cada vez mais rápido, mas desenvolvimento humano não pode ser tratado como
uma atualização de software.

Pessoas precisam de tempo para compreender
mudanças, elaborar perdas, construir novas referências, reconhecer habilidades
que ainda possuem valor e desenvolver outras que passarão a ser necessárias.

Mais do que acompanhar máquinas cada vez
mais rápidas, precisaremos formar seres humanos capazes de permanecer
emocionalmente saudáveis diante da velocidade delas.

O Dia Mundial da Saúde Mental nos lembra da
importância de olhar para quem já sofre, ampliar acesso ao cuidado e romper
silêncios que ainda cercam o adoecimento mental, mas pode também nos provocar a
fazer uma pergunta anterior: o que estamos fazendo para que menos pessoas
precisem chegar ao limite para perceber que alguma coisa precisa mudar?

Artigo de:

Hilda Medeiros, que é educadora executiva,
escritora best-seller e criadora do Método L.E.G.A.D.O

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