Fortalecer o sentimento de pertencimento dos jovens ao território e valorizar a cultura periférica. Estes foram os principais objetivos do projeto “Vozes do Inter: Memórias, Narrativas e Identidades em Rima, Imagem e Grafite”, que ao longo de quatro meses promoveu oficinas de formação artística e valorização da memória coletiva do bairro Interlagos, em Linhares. Alcançando mais de 90 crianças e adolescentes, entre 10 e 16 anos, as oficinas de fotografia, rimas, memórias e grafite foram realizadas na Associação de Moradores do bairro e na Escola Municipal de Ensino Fundamental e Médio Marilia de Rezende Scarton Coutinho.
As oficinas foram conduzidas pelos artistas e educadores Gustavo Maia (fotografia), Cailon Constantino (rimas), Reuber Nascimento (memórias e oralidade) e Jota TX7 (grafite e pintura). A proposta incentivou os participantes a resgatarem histórias do território onde vivem e transformarem essas vivências em produções artísticas por meio da escrita, da fotografia e das artes visuais.
A oficina de grafite e pintura, desenvolvida pelo artista visual JOTATX7, foi capaz de transformar lembranças, símbolos e afetos em imagens. Realizada em parceria com a Associação de Moradores do Interlagos, cada obra revela um pedaço da relação construída entre os participantes e a comunidade, seja por meio de referências ao território, à natureza, às brincadeiras… todos elementos que fazem do bairro um lugar único.
Já a oficina de memória, realizada na Escola Marília de Rezende Scarton Coutinho, convidou as crianças para viajarem pelo tempo conhecendo histórias do bairro Interlagos e da cidade de Linhares. Os participantes perceberam que cada rua, lugar e pessoa carregam lembranças que ajudam a contar a própria história. A oficina foi realizada por Reuber da Costa Nascimento, presidente da Seccional Regional de Linhares do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo (SERLIHGES), que desenvolve ações de pesquisa e educação patrimonial, promovendo a valorização da identidade cultural de Linhares.
“A EMEFM Marília de Rezende Scarton Coutinho é uma das escolas mais tradicionais do bairro Interlagos e faz parte da história da comunidade. Desenvolver uma atividade nesse espaço permitiu fortalecer a construção da percepção da identidade do bairro. Além da oficina, a escola recebeu uma exposição das produções desenvolvidas pelos participantes e uma roda de conversa sobre a identidade do bairro Interlagos. O objetivo foi incentivar a valorização da história local, promover reflexões sobre pertencimento e compartilhar com a comunidade escolar os resultados construídos ao longo do projeto”, explica Michele Boldrini, uma das responsáveis pelo projeto.
Com a oficina de fotografia, ministrada pelo fotógrafo e filmmaker, Gustavo Maia, as crianças empunharam câmeras descartáveis enquanto percorriam ruas, praças e espaços do cotidiano. Em parceria com a Associação de Moradores do Interlagos, os pequenos registraram paisagens, encontros e fragmentos do bairro que redescobriram por meio das lentes fotográficas.
A oficina de rimas, ministrada por Cailon Constantino, poeta de Linhares (ES), foi realizada em parceria com a capoeira do Interlagos, uma expressão cultural que há anos faz parte da identidade do bairro, e dessa vez, por meio da Drena Machado, parte da equipe. Inspirados pela musicalidade da capoeira, os participantes experimentaram versos, ritmos e palavras para criar rimas que falam da sua vivência com a capoeira no bairro.
O encerramento aconteceu na Associação de Moradores do Interlagos, reunindo participantes, familiares, comunidade e representantes da ASSURLIN – Associação dos Surdos de Linhares. Durante o evento, foram apresentados os trabalhos produzidos nas oficinas, incluindo fotografias, pinturas e rimas inspiradas nas memórias e identidades do bairro.
Como forma de ampliar o acesso ao conteúdo produzido, o projeto também desenvolveu vídeos com recursos de audiodescrição, reforçando o compromisso com a acessibilidade e a democratização da cultura. A iniciativa buscou fortalecer o vínculo dos jovens ao território, valorizar a cultura periférica e criar espaços de expressão artística capazes de contribuir para a inclusão social e o fortalecimento da comunidade.
“Foi emocionante perceber como cada oficina despertou novas formas de enxergar o bairro, fortalecendo a autoestima, a criatividade e o sentimento de pertencimento deles. Ao longo do processo, vimos crianças e adolescentes que, muitas vezes, não se reconheciam como produtores de cultura descobrirem que suas histórias, seus olhares e suas vivências têm valor. Além disso, muitos revelaram aptidões artísticas que ainda não haviam se atentado, encontrando na fotografia, nas rimas e na pintura novas formas de expressão. Esse é o maior legado do projeto: mostrar que a arte é uma poderosa ferramenta de escuta, expressão, fortalecimento identitário e transformação social”, finaliza Michele.