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Mais do que substituir profissionais, a inteligência artificial está redefinindo competências e ampliando a importância de quem sabe combinar tecnologia, pensamento crítico e capacidade de adaptação

*Por Vinícius Gracia

Durante muito tempo, toda grande transformação tecnológica veio acompanhada da mesma pergunta: empregos vão desaparecer? Com a inteligência artificial, não está sendo diferente. A preocupação é compreensível. O problema é que, muitas vezes, estamos olhando para a pergunta errada.

Ao longo da minha trajetória, vi empresas perderem espaço por resistirem à mudança e profissionais ficarem para trás não por falta de talento, mas por insistirem nos mesmos métodos enquanto o mercado já operava em outro ritmo. A inteligência artificial não reduz a importância das pessoas. Ela redefine a forma de produzir, analisar e decidir.

Os números ajudam a dimensionar esse movimento. Pesquisa realizada pela KPMG em parceria com a Universidade de Melbourne revelou que 86% dos trabalhadores brasileiros já utilizam inteligência artificial em suas atividades profissionais e que 71% perceberam ganhos de eficiência e melhora na qualidade das entregas. O estudo mostra que a tecnologia já faz parte da rotina de trabalho de milhões de profissionais e que seus impactos deixaram de ser uma tendência futura para se tornarem uma realidade presente (KPMG; UNIVERSITY OF MELBOURNE. Trust, Attitudes and Use of Artificial Intelligence: A Global Study 2025. Melbourne: University of Melbourne; KPMG International, 2025).

Tenho acompanhado essa transição de perto e percebo um erro recorrente. Há quem trate a inteligência artificial como ameaça inevitável e quem a veja como resposta automática para qualquer problema. Nenhum desses extremos contribui. A tecnologia não substitui pensamento crítico, repertório, experiência ou responsabilidade humana. Ela amplia capacidade.

Esse impacto aparece de forma clara em diferentes áreas. Um desenvolvedor ganha velocidade para testar hipóteses, revisar códigos e automatizar tarefas repetitivas. Na saúde, sistemas já apoiam triagens, leitura de exames e identificação de padrões. Na gestão, ajudam a interpretar grandes volumes de informação que antes consumiam horas ou dias de análise.

Mas existe um ponto pouco discutido: produtividade sem preparo também pode gerar erro em escala. Modelos de inteligência artificial ainda cometem falhas. Eles podem responder com convicção e, ainda assim, entregar informações incorretas. Já vi sistemas criarem dados inexistentes, sugerirem caminhos inseguros e produzirem respostas aparentemente perfeitas que não resistiam a uma validação técnica.

Por isso, não acredito que o futuro do trabalho será definido por uma disputa entre humanos e máquinas. A diferença estará entre quem aprende a utilizar essas ferramentas e quem escolhe ignorá-las.

A própria McKinsey identificou que a adoção da inteligência artificial continua acelerando em empresas de diferentes setores ao redor do mundo. O levantamento mostra que organizações que investem em IA estão ampliando a busca por profissionais capazes de utilizar essas tecnologias de forma estratégica, combinando conhecimento técnico, capacidade analítica e tomada de decisão humana (MCKINSEY & COMPANY. The State of AI: How Organizations Are Rewiring to Capture Value. Nova York: McKinsey & Company, 2025).

Esse avanço não aponta para um mercado sem pessoas. Aponta para relações profissionais que exigirão novas competências.

Não acredito em substituição total, acredito em adaptação. Da mesma forma que planilhas não eliminaram profissionais de finanças e softwares de gestão não extinguiram administradores, a inteligência artificial também não dispensa a necessidade humana de interpretar, criar, decidir e assumir responsabilidade.

A evolução tecnológica continuará acontecendo. Isso é inevitável. A escolha que permanece humana é outra: aprender a trabalhar ao lado dela ou insistir em competir contra uma realidade que já chegou.

*Vinícius Gracia é engenheiro da computação e especialista em softwares e inteligência artificial. Cofundador e CTO da Easy Taxi e da Remessa Online, construiu sua trajetória na criação e expansão de negócios de base tecnológica. Atualmente participa de boards e presta consultoria estratégica em IA, dados e segurança para empresas de diferentes setores. Ao longo da carreira, esteve envolvido no desenvolvimento das primeiras plataformas digitais e do delivery do Giraffas.

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