Dougllas Fernanddo analisa o impacto das redes na música e a importância de transformar atenção em público
Uma música pode aparecer de repente em milhares de vídeos, entrar nas conversas das redes sociais e fazer um artista desconhecido ser descoberto em poucos dias. O alcance, porém, é apenas uma parte do caminho. Para transformar uma repercussão digital em carreira, é necessário aproveitar o momento para apresentar outros trabalhos, ampliar os espaços de divulgação e criar uma relação que permaneça depois que a tendência perde força.
A dinâmica já faz parte do mercado musical. Plataformas como TikTok, Instagram e YouTube modificaram a maneira como canções chegam ao público e permitiram que artistas independentes encontrassem audiência sem depender exclusivamente dos meios tradicionais.
O fenômeno também pode acontecer com músicas que não foram lançadas recentemente. Uma faixa antiga pode voltar a circular depois de aparecer em um vídeo, uma coreografia ou uma publicação de grande alcance.
O desafio aparece justamente depois da viralização. Se o público chegou por uma música, o que fará esse mesmo público permanecer?
Para Dougllas Fernanddo, CEO do Brazil Em Evidência e profissional da área de comunicação, o momento de maior exposição precisa ser acompanhado por uma estratégia capaz de apresentar o restante do trabalho do artista.
“Viralizar pode abrir uma porta, mas não garante que as pessoas vão acompanhar a carreira. O artista precisa aproveitar aquela atenção para mostrar quem é, quais são seus outros trabalhos e o que pretende construir a partir daquele momento”, explica.
A transformação da repercussão em público recorrente pode acontecer de diferentes formas. Um novo lançamento pode aproveitar a atenção de uma música que está em alta. Apresentações podem aproximar o artista de quem o descobriu pela internet. Entrevistas e matérias podem contextualizar a trajetória para além de um único conteúdo.
O movimento pode ser observado em diferentes momentos da música brasileira. O próprio Brazil Em Evidência acompanhou recentemente a trajetória de BALARA, que desenvolve uma carreira independente e ampliou sua presença no mercado após a parceria com Jorge Vercillo. A música “Algo Me Diz” alcançou a liderança das rádios de MPB por dez semanas consecutivas e ultrapassou 2,5 milhões de reproduções no Spotify.
A experiência mostra uma diferença importante entre chamar atenção e consolidar um nome. O primeiro pode acontecer rapidamente. O segundo depende de uma sequência de trabalhos e de uma identidade reconhecível pelo público.
No ambiente digital, essa construção também envolve a capacidade de manter a comunicação depois do primeiro pico de interesse.
Uma publicação que apresenta apenas o trecho viral de uma música pode despertar curiosidade. Já conteúdos que mostram apresentações, bastidores, processos de gravação e outros lançamentos ajudam a ampliar o conhecimento sobre o artista.
Dougllas considera que essa continuidade pode evitar que o profissional fique associado exclusivamente a um único momento.
“Se uma pessoa conheceu o artista por causa de uma música, é importante que ela tenha caminhos para descobrir o restante da carreira. A comunicação precisa acompanhar esse público depois que ele chega”, afirma.
A imprensa entra nesse processo como outro espaço de apresentação. Uma reportagem pode contar a história por trás de uma música, explicar como determinado lançamento surgiu ou mostrar o momento profissional vivido pelo artista.
Para quem está começando, esse tipo de exposição também pode ajudar a construir um registro público da trajetória. Uma matéria sobre os primeiros resultados de um trabalho pode ganhar novo significado quando o artista alcança outras etapas da carreira.
A combinação entre redes sociais e imprensa não significa reproduzir o mesmo conteúdo em todos os canais. Cada ambiente pode apresentar uma parte diferente da história.
Nas redes, o artista conversa diretamente com os seguidores. Em uma reportagem, pode apresentar contexto, trajetória e informações que ajudem quem ainda não conhece seu trabalho a entender aquele momento.
“Uma música pode fazer alguém parar para ouvir. A carreira precisa dar motivos para essa pessoa continuar acompanhando”, resume Dougllas.
Outro ponto envolve os próprios números. Visualizações, compartilhamentos e seguidores ajudam a dimensionar o alcance de uma ação, mas não representam sozinhos a permanência de um artista no mercado.
O público que chega por uma tendência pode se renovar rapidamente. Por isso, novos lançamentos, apresentações e projetos são importantes para manter a trajetória em movimento.
A viralização, nesse sentido, pode ser menos um ponto de chegada e mais uma oportunidade de apresentar uma carreira que ainda está sendo construída.
Em um mercado no qual uma música pode atravessar fronteiras em poucas horas, o desafio dos novos artistas não está apenas em conseguir atenção. Está em transformar essa atenção em identificação, acompanhamento e interesse por aquilo que vem depois.