Medo, custo e falta de hábito preventivo mantêm uma parcela expressiva da população longe do consultório odontológico.
Onze por cento dos brasileiros nunca foram ao dentista na vida. O dado, levantado pela UniCuritiba com base em pesquisas nacionais de saúde, traduz um problema que vai além da questão financeira: envolve fobia, desinformação e uma cultura que, historicamente, tratou a ida ao dentista como recurso de emergência, não como prática preventiva rotineira. Mesmo entre quem acessa os serviços odontológicos, a regularidade é baixa: 68% dos brasileiros foram ao dentista em algum momento, mas apenas 33% realizaram tratamento odontológico completo, segundo pesquisa publicada pela Jovem Pan.
A saúde bucal segue sendo tratada de forma secundária em relação a outras dimensões da saúde, o que cria um ciclo em que pequenos problemas se agravam até se tornarem urgências que exigem intervenções mais caras e invasivas.
Os principais motivos que levam os brasileiros a adiar a ida ao dentista
O custo é o obstáculo mais citado. Tratamentos odontológicos no setor privado têm preços que escapam ao orçamento de boa parte da população, e o acesso pelo Sistema Único de Saúde (SUS), embora ampliado nas últimas décadas, ainda enfrenta filas e limitações de cobertura em muitas regiões do país. A ausência de plano odontológico é realidade para milhões de trabalhadores informais, o que torna a consulta de rotina um gasto que sempre pode ser postergado.
O medo de dentista, tecnicamente chamado de odontofobia, é o segundo fator mais determinante. Estima-se que entre 10% e 15% da população apresentam ansiedade significativa associada ao ambiente odontológico. Essa fobia tem raízes em experiências anteriores traumáticas, na percepção de dor antecipada e na sensação de vulnerabilidade durante os procedimentos. O resultado prático é o adiamento sistemático da consulta odontológica, mesmo quando o problema já está instalado.
Há ainda um terceiro fator, menos discutido: a ausência de cultura preventiva. A maioria dos brasileiros procura o dentista apenas quando sente dor ou percebe alguma alteração visível. A lógica de manutenção periódica, que orienta outras áreas da saúde, ainda não foi incorporada de forma consistente à rotina de cuidados com a boca.
Os principais motivos que sustentam esse comportamento incluem: • Custo elevado dos tratamentos no setor privado e acesso limitado pelo sistema público • Odontofobia associada a experiências anteriores dolorosas ou traumáticas • Ausência de hábito preventivo, com busca por atendimento apenas em situações de emergência • Falta de informação sobre a relação entre saúde bucal e saúde sistêmica
Os riscos da falta de prevenção para a saúde bucal
Adiar o tratamento dentário tem consequências que extrapolam a cavidade oral. Pesquisas científicas consolidadas estabelecem associação entre doenças periodontais e condições sistêmicas como diabetes, doenças cardiovasculares e complicações na gestação. A inflamação crônica gerada pela doença periodontal não tratada pode atuar como fator agravante em outras condições de saúde já existentes.
Do ponto de vista local, cáries não tratadas evoluem para infecções, abscessos e perda dentária. Cada estágio de agravamento representa um tratamento mais complexo, mais invasivo e mais caro. O que poderia ser resolvido com uma restauração simples se transforma, ao longo de meses ou anos de descuido, em procedimentos que demandam maior tempo de cadeira, anestesia mais intensa e custo significativamente mais alto.
A prevenção bucal regular, com consultas a cada seis meses, é suficiente para identificar e tratar a maior parte dos problemas em estágio inicial.
Como a formação profissional e o acesso facilitado ajudam a mudar esse cenário
O avanço no atendimento humanizado começa ainda na faculdade de odontologia, onde os novos profissionais são treinados para acolher pacientes que sofrem com a fobia de consultório. Técnicas de comunicação, protocolos de manejo da ansiedade e abordagens menos invasivas fazem parte da formação atual, diferenciando a prática odontológica contemporânea da que muitos brasileiros conheceram nas décadas anteriores.
A ampliação das clínicas-escola vinculadas às universidades também tem papel relevante nesse processo. Esses espaços oferecem cuidados com os dentes a preços acessíveis ou de forma gratuita, atendendo uma população que não conseguiria arcar com os valores do setor privado. Associado ao fortalecimento da atenção básica pelo Sistema Único de Saúde (SUS), esse modelo contribui para democratizar o acesso à odontologia preventiva.