Dra. Thaís Pinheiro Lima, cardiologista, alerta que dor no peito continua sendo um sinal importante, mas mulheres também podem apresentar falta de ar, náusea, cansaço incomum e desconforto nas costas ou mandíbula
Outubro costuma colocar a saúde feminina no centro das atenções por causa da prevenção do câncer de mama. O movimento também abre espaço para uma discussão que muitas mulheres ainda deixam em segundo plano: a prevenção cardiovascular. E existe um motivo para falar sobre o coração antes mesmo de qualquer diagnóstico. Nem sempre um infarto feminino corresponde à imagem clássica de uma pessoa levando a mão ao peito diante de uma dor intensa.
A dor ou o desconforto no peito continua sendo o sintoma mais comum de infarto tanto em homens quanto em mulheres. A diferença é que elas também podem apresentar manifestações menos imediatamente associadas ao coração, como falta de ar, náusea ou vômito, fadiga incomum, tontura e dores nas costas, ombro, braço, pescoço ou mandíbula. www.heart.org
Para a Dra. Thaís Pinheiro Lima, cardiologista, essa apresentação pode contribuir para que os primeiros sinais sejam minimizados.
“Existe um risco quando a mulher espera necessariamente aquela dor forte no centro do peito para considerar a possibilidade de um infarto. Ela pode ter desconforto torácico, mas também chegar com uma combinação de cansaço fora do habitual, falta de ar, náusea ou dor nas costas e na mandíbula. Se esses sintomas surgem de maneira súbita e sem uma explicação clara, principalmente em quem possui fatores de risco, não devem ser banalizados”, explica.
“Achei que fosse ansiedade”
Parte do problema está justamente na facilidade de encontrar outras explicações para esses sintomas. Uma indisposição pode parecer problema digestivo; a exaustão é atribuída à rotina; falta de ar e palpitação podem ser interpretadas como ansiedade.
Uma declaração científica da American Heart Association publicada em 2026 reforçou que mulheres pré-menopáusicas com síndrome coronariana aguda ainda constituem um grupo frequentemente sub-reconhecido e podem apresentar desde dor no peito até sintomas gastrointestinais, sudorese, ansiedade, fadiga e tontura. O documento também destaca atrasos na procura por atendimento e no diagnóstico. professional.heart.org
“Ansiedade, refluxo e cansaço existem e são muito comuns, mas não podemos concluir que sejam a causa antes de avaliar uma situação potencialmente grave. No infarto, tempo faz diferença. Entre ir ao pronto atendimento e descobrir que não era um evento cardíaco ou permanecer em casa esperando um infarto passar, o segundo cenário é o que não podemos correr o risco de escolher”, alerta Thaís.
Mulher jovem também pode infartar
Outro mito perigoso é imaginar que doença cardiovascular seja uma preocupação apenas depois da menopausa. A idade influencia o risco, mas mulheres mais jovens também podem apresentar síndrome coronariana aguda. A American Heart Association chama atenção, inclusive, para mecanismos que merecem consideração específica em mulheres jovens, como a dissecção espontânea da artéria coronária (SCAD). professional.heart.org
Para Thaís, isso não significa que mulheres jovens devam viver com medo de um infarto, mas que idade e sexo não podem ser utilizados isoladamente para descartar sintomas.
“Uma mulher de 40 anos pode pensar que é jovem demais para ter um problema cardiovascular e, por isso, esperar. A prevenção serve justamente para conhecer o risco antes da emergência. Pressão arterial, colesterol, glicemia, tabagismo, sedentarismo, histórico familiar e outras condições precisam ser acompanhados ao longo da vida”, afirma.
E prevenção não começa na porta do pronto-socorro. A consulta cardiológica permite avaliar fatores de risco que frequentemente são silenciosos, como hipertensão, colesterol elevado e alterações metabólicas, além de discutir atividade física, alimentação, sono e tabagismo.
Outubro Rosa pode ampliar a conversa sobre saúde feminina
Para a cardiologista, a força do Outubro Rosa também pode ser aproveitada para lembrar que cuidar da mulher significa olhar para sua saúde de forma integral.
“Aprendemos, corretamente, a lembrar as mulheres de fazer acompanhamento ginecológico e cuidar das mamas. Precisamos criar a mesma consciência em relação ao coração. A mulher não deve procurar um cardiologista apenas quando sente dor no peito. Prevenção cardiovascular é conhecer seus fatores de risco, acompanhar aquilo que pode ser modificado e, diante de um possível sinal de infarto, não perder tempo tentando provar para si mesma que não é nada”, finaliza a Dra. Thaís Pinheiro Lima, cardiologista.
Sobre a especialista
Dra. Thaís Pinheiro Lima é cardiologista.
Instagram: @drathaispinheirolima