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Quando o assunto é vazamento de dados, a maioria das empresas imagina cenários envolvendo ataques cibernéticos sofisticados, invasões de sistemas ou ação de criminosos especializados. No entanto, uma parcela significativa das exposições de informações sensíveis acontece de forma muito mais simples durante processos rotineiros de compartilhamento de documentos.

Contratos enviados por e-mail, planilhas compartilhadas entre departamentos, apresentações corporativas, processos judiciais, documentos de recursos humanos e até arquivos encaminhados para fornecedores podem conter informações pessoais ou estratégicas expostas sem que a organização perceba.

Para o advogado especialista em proteção de dados, governança digital e cibersegurança, Lucas Paglia, existe um equívoco comum no mercado ao associar vazamentos exclusivamente a ataques externos.

“Muitas organizações investem em firewalls, antivírus e sistemas de proteção perimetral, mas acabam ignorando riscos que surgem dentro da própria operação. Em diversos casos, a exposição ocorre durante atividades rotineiras, quando documentos são compartilhados sem uma análise adequada das informações que contêm”, explica.

Contudo, o problema não está apenas na invasão, mas no processo. Segundo Paglia, a transformação digital aumentou exponencialmente o volume de dados que circulam diariamente dentro das empresas. Informações de clientes, colaboradores, fornecedores e parceiros são processadas e compartilhadas em uma velocidade sem precedentes.

O desafio é que nem sempre existem controles compatíveis com essa realidade. “Muitas empresas possuem processos maduros de segurança da informação, mas ainda dependem de procedimentos manuais para revisar documentos e identificar informações sensíveis. Isso aumenta significativamente o risco de falhas humanas”, afirma Lucas.

A exposição indevida de informações pode gerar consequências jurídicas e regulatórias, mas os impactos costumam ir além das obrigações legais. Incidentes envolvendo dados podem comprometer negociações, afetar a reputação da empresa, gerar perda de confiança de clientes e parceiros e até produzir prejuízos financeiros relevantes.

“Quando falamos em proteção de dados, não estamos discutindo apenas conformidade regulatória. Estamos falando de continuidade dos negócios, reputação corporativa e gestão de riscos”, destaca.

O avanço da inteligência artificial também adiciona uma nova camada de preocupação ao tema. Ferramentas cada vez mais sofisticadas conseguem processar grandes volumes de informação e identificar padrões, ampliando tanto as oportunidades quanto os riscos relacionados ao tratamento de dados.

Para Paglia, esse cenário exige uma mudança de mentalidade das organizações. “A governança de dados não pode ser vista como uma obrigação burocrática. Os dados se tornaram ativos estratégicos. Quanto maior o valor dessas informações, maior deve ser o cuidado com todo o seu ciclo de vida, desde a coleta até o compartilhamento e descarte”, afirma.

E o que as empresas precisam fazer? Segundo o especialista, o primeiro passo é reconhecer que a proteção de dados não depende apenas da área de tecnologia. Mapear fluxos de informação, revisar processos internos, estabelecer políticas claras de compartilhamento e investir em mecanismos de identificação e proteção de informações sensíveis são medidas fundamentais para reduzir riscos.

“O maior erro é acreditar que o vazamento só acontece quando existe um hacker do outro lado. Muitas vezes, o problema está em processos internos que não acompanharam a velocidade da transformação digital”, conclui.

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