Redução
de vagas no alto rendimento e o início da faculdade coincidem justamente na
idade em que a base termina, e isso tem custado trajetórias construídas desde a
infância
Um
atleta pode passar 10 anos treinando até chegar aos 18 e descobrir, justamente
nessa idade, que continuar no esporte ficou mais difícil. Entre a redução das
vagas nas equipes, a tentativa de ingressar no alto rendimento e o início da
faculdade, uma trajetória construída desde a infância pode ser interrompida
antes de alcançar seu potencial.
A
treinadora de voleibol e especialista em desenvolvimento de atletas e análise
de performance Ana Paula Zandona conhece esse momento dos dois lados. Começou a
jogar aos oito anos, passou por Mackenzie Esporte Clube e Minas Tênis Clube e,
depois de ser cortada, encontrou nas universidades americanas uma forma de
continuar competindo e estudar. Hoje, atua no esporte universitário dos Estados
Unidos e participa do desenvolvimento e recrutamento de jogadores.
“O
Brasil tem um trabalho muito bom de construção do atleta desde cedo. O caminho
começa a se afunilar quando eles ficam mais velhos. Eu vim para os Estados
Unidos porque fui cortada. Queria continuar jogando e também ter um diploma”.
Nos
Estados Unidos, esporte e ensino superior fazem parte de uma mesma estrutura,
sustentada por números que não têm equivalente no Brasil. Na temporada 2024/25,
554.298 atletas disputaram modalidades de campeonato da NCAA, recorde histórico,
e mais de 25 mil deles vieram de fora do país. Todos os anos, cerca de 180 mil
bolsas de estudo são distribuídas via esporte universitário nos Estados Unidos,
um valor que ultrapassa US$4 bilhões somando NCAA, NAIA e NJCAA. Para alguns
jovens, o modelo oferece uma alternativa à escolha entre competição e formação
acadêmica que o Brasil, hoje, não oferece.
Zandona
explica que até os horários de treinamento são definidos considerando as aulas
das jogadoras. “A prioridade é o estudo. Pegamos os horários de aula de todas
as atletas e procuramos o período em que conseguimos reunir mais gente sem
prejudicar as aulas”.
A
experiência brasileira pode trazer ainda outra particularidade. Na avaliação da
treinadora, jovens formados no país podem chegar ao recrutamento americano com
muito mais horas de quadra acumuladas. Enquanto brasileiros podem começar ainda
crianças e passar anos treinando diariamente, algumas atletas americanas mantêm
rotinas menos intensas.
Dependendo
da trajetória, Zandona estima que a diferença possa chegar ao dobro ou ao
triplo, representando uma vantagem no processo de recrutamento. Isso não
significa necessariamente mais talento. Duas atletas da mesma idade podem
chegar aos 18 anos com volumes muito diferentes de repetição técnica, competição
e experiência. O mesmo país capaz de formar uma atleta durante anos pode não
conseguir mantê-la no esporte quando chega a hora de conciliar alto rendimento
e universidade. Zandona encontrou outro caminho. Depois de deixar o Brasil,
jogou no sistema universitário americano, chegou à NCAA Division I e
transformou a continuidade no esporte também em profissão.
Hoje,
do outro lado do recrutamento, observa jovens diante de decisões semelhantes à
que precisou tomar. Ser cortado de uma equipe ou deixar uma categoria de base
não significa necessariamente que o potencial terminou. Às vezes, o que acabou
foi apenas o espaço disponível para continuar desenvolvendo-o.
Sobre
Ana
Paula Zandona é treinadora de voleibol e especialista em desenvolvimento de
atletas e análise de performance, com experiência no esporte universitário dos
Estados Unidos. Ex-atleta de voleibol no Brasil e nos EUA, atuou como
levantadora na NCAA Division I e construiu sua carreira como treinadora em
diferentes programas universitários americanos. Possui experiência em
planejamento de treinos, recrutamento, desenvolvimento técnico e análise de
desempenho por meio de dados e ferramentas especializadas. É mestre em
Administração Esportiva e Estudos do Esporte e atualmente cursa MBA em Business
Analytics.