Novembro Azul: o homem que aprende a não pedir socorro.
Imagem criada por IA

Há homens que passam a vida
inteira preparados para socorrer os outros, mas que não sabem o que fazer
quando são eles que precisam de ajuda. Aprendem a proteger, trabalhar,
sustentar a família e enfrentar situações difíceis sem demonstrar medo. Quando
sentem dor, dizem que vai passar. Quando estão preocupados, procuram se
distrair. Quando a tristeza aparece, tentam escondê-la atrás do trabalho, do
silêncio ou de uma irritação que nem sempre conseguem explicar. Por trás dessa
postura, muitas vezes existe uma história construída a partir de uma ideia
profundamente enraizada na nossa cultura: homem de verdade não demonstra
fraqueza.

A Campanha Novembro Azul nos
convida a falar sobre o câncer de próstata e a saúde masculina, mas acredito
que precisamos ampliar essa conversa.

“Não basta orientar os
homens a cuidar do corpo se continuarmos ensinando, direta ou indiretamente,
que reconhecer o sofrimento emocional é sinal de fragilidade. “

A saúde não pode ser compreendida
apenas pelos exames, pelos sintomas físicos ou pela ausência de doenças. Ela
também envolve a capacidade de reconhecer os próprios limites, compreender as
emoções e procurar ajuda quando alguma coisa não vai bem. Afinal, um homem pode
continuar trabalhando, cumprindo suas obrigações e aparentando normalidade
enquanto enfrenta, em silêncio, conflitos que comprometem sua qualidade de
vida.

Minha trajetória de três décadas
no Corpo de Bombeiros me ensinou muito sobre a importância do resgate, da
prontidão e da responsabilidade diante de situações em que a vida está em
risco. Entretanto, ao longo dessa experiência, compreendi também que nem todo
sofrimento é visível e nem toda emergência produz sirenes.

Existem pessoas que pedem socorro
sem pronunciar uma palavra, escondendo sua angústia atrás de uma rotina
aparentemente normal. Foi a partir dessa compreensão sobre o sofrimento humano
e a necessidade de acolhimento que a psicanálise passou a ocupar um lugar
importante na minha trajetória. No consultório, percebo como aquilo que uma
pessoa não consegue expressar pode influenciar seus relacionamentos, suas
escolhas e a maneira como ela se posiciona diante da própria vida.

Essa dificuldade masculina de
falar sobre sentimentos não surge espontaneamente na idade adulta. Ela começa,
muitas vezes, na infância, quando o menino escuta que precisa engolir o
choro, não pode sentir medo ou deve resolver seus problemas sozinho
.
Aos poucos, aprende que determinadas emoções são socialmente aceitas, enquanto
outras precisam ser escondidas.

Pode demonstrar raiva, mas sente
vergonha de admitir tristeza; consegue falar sobre problemas profissionais, mas
não encontra palavras para expressar solidão, insegurança ou necessidade de
afeto. O resultado é uma espécie de analfabetismo emocional, não porque esses
homens sejam incapazes de sentir, mas porque nem sempre tiveram espaço para
aprender a reconhecer e comunicar o que sentem.

Como a psicanálise vê isso?

Na perspectiva psicanalítica,
esse comportamento merece ser compreendido para além das aparências. Freud
demonstrou como os mecanismos de defesa participam da maneira pela qual lidamos
com experiências dolorosas, conflitos e desejos que provocam angústia. Evitar
determinados sentimentos pode ser uma tentativa de preservar o equilíbrio
psíquico diante de algo difícil de suportar. O problema começa quando essa
estratégia deixa de ser circunstancial e se transforma na única maneira de
viver. O homem que repete insistentemente que consegue resolver tudo sozinho
pode estar tentando proteger uma imagem de invulnerabilidade que construiu ao
longo da vida, mesmo quando essa imagem já não corresponde àquilo que sente. Ao
evitar o contato com a própria fragilidade, ele também pode acabar se afastando
das pessoas e das possibilidades de cuidado que poderiam ajudá-lo.

Carl Gustav Jung oferece outra
contribuição importante para essa reflexão ao abordar a persona, isto é, a
imagem que apresentamos ao mundo para desempenhar nossos papéis sociais. Ser o
pai responsável, o profissional competente, o companheiro protetor ou aquele
que sempre encontra uma solução não é, por si só, um problema.

Essas funções fazem parte da
vida. A dificuldade aparece quando o indivíduo acredita que precisa representar
esse personagem o tempo inteiro, sem permitir que outras dimensões de sua
personalidade encontrem espaço. Medo, insegurança, tristeza e necessidade de
acolhimento passam a ser tratados como características incompatíveis com sua
identidade masculina e ficam relegados àquilo que Jung chamou de sombra.
Reconhecer essas partes não significa abandonar as responsabilidades, mas
compreender que a maturidade emocional exige algo além de sustentar uma imagem
de força: exige a coragem de reconhecer a própria humanidade.

Essa discussão se torna ainda
mais relevante quando um homem recebe a notícia de que precisa investigar uma
alteração na próstata ou enfrenta um diagnóstico de câncer. A palavra câncer
costuma provocar um impacto que ultrapassa o significado médico. Ela pode
despertar o medo da morte, a incerteza sobre o futuro, a preocupação com a
família e a sensação de perda de controle sobre o próprio corpo. Para alguns
homens, surgem também receios relacionados à sexualidade, à autoestima, à
intimidade e à possibilidade de depender de outras pessoas durante o
tratamento. São preocupações que merecem ser acolhidas sem julgamentos, pois
cada pessoa reage à doença de acordo com sua história, seus recursos emocionais
e a rede de apoio de que dispõe.

E como fica a cabeça do homem?

Nessas circunstâncias, não
podemos presumir que o homem esteja tranquilo apenas porque não chora ou não
fala sobre o que está sentindo. O silêncio pode representar uma forma de
enfrentamento, mas também pode esconder medo, vergonha ou dificuldade de elaborar
a notícia. Por isso, o apoio psicológico pode ser importante tanto no período
de investigação quanto durante o tratamento e a recuperação, conforme as
necessidades de cada paciente.

Ter um espaço (buscar ajuda) para expressar dúvidas,
organizar os pensamentos e falar sobre aquilo que não consegue compartilhar com
a família pode ajudar a enfrentar essa experiência com mais recursos
emocionais. Isso não substitui o acompanhamento médico; ao contrário,
complementa o cuidado integral.

Também é fundamental que a
informação sobre a prevenção seja transmitida de maneira responsável. O
Ministério da Saúde não recomenda o rastreamento populacional do câncer de
próstata para homens sem sinais ou sintomas, devido às limitações e aos
possíveis danos associados aos exames realizados indiscriminadamente.

A decisão sobre investigar a
doença deve considerar a situação individual, os fatores de risco, os
benefícios e os possíveis prejuízos, em diálogo com um profissional de saúde.
Diante de sintomas, alterações ou preocupações, procurar avaliação médica é essencial.

A campanha Novembro Azul
deve estimular a informação e o cuidado consciente e não produzir medo ou
transformar uma decisão médica individual em uma obrigação generalizada.

Entretanto, existe um obstáculo
que não se resolve apenas com informação: a maneira como os homens foram
ensinados a se relacionar com a própria vulnerabilidade
. Muitos só
procuram atendimento quando a situação se torna difícil de ignorar. Outros
dependem do incentivo de uma companheira, de um familiar ou de um amigo para
marcar uma consulta. Há ainda aqueles que adiam o cuidado porque acreditam que
precisam priorizar o trabalho, as despesas domésticas ou os problemas de todas
as outras pessoas antes de olhar para si mesmos.

Na minha compreensão, esse
comportamento não deve ser interpretado simplesmente como irresponsabilidade.
Precisamos considerar os padrões culturais, os medos e as experiências que
contribuíram para que o autocuidado fosse percebido como algo secundário.

É por isso que considero
insuficiente tratar o Novembro
Azul
apenas como uma campanha anual. É necessário construir uma cultura na
qual o homem possa cuidar da saúde sem sentir que está traindo o modelo de
masculinidade que aprendeu a representar. Isso envolve famílias que não
ridicularizem o choro, ambientes profissionais que não confundam exaustão com
comprometimento e relações afetivas nas quais a expressão dos sentimentos não
seja recebida como motivo de desprezo. Envolve, ainda, profissionais preparados
para escutar sem reduzir toda manifestação de sofrimento a uma simples falta de
força de vontade.

Como podemos ajudar?

Amigos e familiares podem
contribuir de maneira significativa, desde que compreendam a diferença entre
apoiar e pressionar. Em vez de insistir em perguntas sucessivas ou oferecer
respostas imediatas para todos os problemas, podem demonstrar disponibilidade,
convidar o homem a procurar atendimento e respeitar seu tempo para falar.

Às vezes, a pessoa não precisa de
um discurso motivacional e nem de alguém que lhe diga que tudo ficará bem.
Precisa encontrar alguém capaz de permanecer ao seu lado sem minimizar sua dor.
Uma pergunta simples, feita com interesse verdadeiro — “Você quer conversar
sobre o que está acontecendo?” — pode abrir uma possibilidade de aproximação
que antes parecia impossível.

Na prática clínica, considero
essencial compreender que cada pessoa tem uma história singular. Não existe uma
única maneira de ser homem, assim como não existe uma resposta emocional
universal diante do adoecimento, do medo ou das perdas. A psicanálise pode
oferecer um espaço para que o indivíduo reconheça os padrões que repete, entre
em contato com sentimentos que aprendeu a esconder e construir novas formas de
se relacionar consigo mesmo e com os outros.

Não se trata de eliminar
toda insegurança, mas de permitir que ela seja reconhecida sem determinar
silenciosamente as escolhas e os caminhos da vida.

Talvez precisemos rever a própria
definição de força que transmitimos às novas gerações. Durante muito tempo, o
homem forte foi apresentado como aquele que suporta tudo, não reclama e jamais
demonstra hesitação. Mas suportar não é necessariamente elaborar, assim como
permanecer em silêncio não significa estar em paz. Há situações em que a
verdadeira coragem consiste em admitir que algo ultrapassou os próprios
recursos e que é necessário buscar orientação.

Marcar uma consulta,
conversar com um profissional, procurar um médico ou dividir uma preocupação
com alguém de confiança são atitudes que demonstram responsabilidade, não
fraqueza.

Neste Novembro Azul, minha
reflexão é que precisamos aprender a reconhecer os homens para além dos papéis
que desempenham. Antes de serem provedores, pais, companheiros, profissionais
ou responsáveis por resolver problemas, são pessoas com histórias, sentimentos,
medos e necessidades. O cuidado com a próstata é importante, mas não deve
encerrar a conversa sobre a saúde masculina
. Precisamos falar também
sobre a solidão, a ansiedade, o sofrimento emocional e as dificuldades que
tantos homens enfrentam para pedir ajuda.

Depois de tantos anos dedicados à
ideia de resgate, continuo acreditando que reconhecer o perigo e permitir que
alguém se aproxime pode fazer toda a diferença. Na vida emocional, isso
significa compreender que não precisamos esperar chegar ao limite para procurar
apoio. Às
vezes, o primeiro passo não exige grandes explicações. Exige apenas a
disposição de dizer que alguma coisa não está bem.

Pedir ajuda não diminui a
força de um homem. Pode ser justamente o gesto que lhe permite recuperar a
própria vida.

Encontrou algum erro? Entre em contato