Direito à desconexão ganha força diante do esgotamento emocional no trabalho contemporâneo

Direito à desconexão ganha força diante do esgotamento emocional no trabalho contemporâneo

Euracy Campos
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Divulgação Hilda MedeirosDivulgação Hilda Medeiros

Especialista alerta para os impactos da hiperconectividade, do trabalho remoto sem limites e das comparações irreais nas redes sociais sobre a saúde mental

O avanço acelerado da tecnologia transformou profundamente as relações de trabalho. Se, por um lado, trouxe mais eficiência, flexibilidade e conectividade, por outro, também eliminou fronteiras essenciais entre vida pessoal e profissional. Nesse cenário, o direito à desconexão deixou de ser um tema secundário e passou a ocupar o centro do debate sobre saúde mental, produtividade e sustentabilidade do trabalho.

Para a terapeuta Hilda Medeiros, criadora do programa Mudança Essencial e autora do livro O Invisível Paralisante — obra que recentemente entrou para a lista de best-sellers, segundo a revista PublishNews —, a urgência dessa pauta está diretamente ligada à perda do respeito pelo tempo humano. “O direito à desconexão se tornou urgente porque o trabalho deixou de respeitar o tempo humano. A tecnologia ampliou eficiência e velocidade, mas também criou uma expectativa constante de disponibilidade”, afirma.

Segundo ela, mensagens fora do horário comercial, e-mails à noite e demandas nos fins de semana se tornaram práticas recorrentes. “O que parecia flexibilidade se transformou em permanência. O corpo permanece em alerta, a mente não descansa, e o cansaço deixa de ser episódico para se tornar crônico”, explica.

Hilda ressalta que o trabalho pode ser fonte de propósito, reconhecimento e dignidade, mas perde essa função quando ocupa todos os espaços da vida. “Descansar não é um luxo nem uma concessão: é uma necessidade fisiológica, emocional e cognitiva. Sem descanso, não há saúde. Sem saúde, não há desempenho sustentável”, reforça a autora, que foi recentemente premiada pela editora Literare Books por integrar a lista dos títulos mais vendidos da casa.

Trabalho remoto ampliou ganhos, mas também riscos emocionais

A consolidação do trabalho remoto aprofundou esse debate. Embora reconheça seus benefícios, a terapeuta chama atenção para os impactos emocionais que muitas vezes passam despercebidos. “O trabalho remoto trouxe ganhos inegáveis, como autonomia, flexibilidade e menos tempo perdido em deslocamentos. Para muitas pessoas, houve uma sensação inicial de liberdade”, diz.
Com o tempo, porém, as fronteiras entre casa e trabalho se tornaram cada vez mais difusas. “Quando o trabalho acontece dentro de casa, o encerramento da jornada se torna impreciso. O computador se fecha, mas a mente permanece ligada”, observa.

Esse estado contínuo de alerta, somado ao isolamento social, à redução das trocas presenciais e à pressão por constante atualização tecnológica, tem contribuído para o aumento de estresse, ansiedade e exaustão emocional. “O trabalho remoto não é o problema. O risco está em adotá-lo sem regras claras, sem acordos explícitos e sem uma cultura organizacional que reconheça limites e cuide das pessoas”, alerta Hilda, que também vem ampliando sua atuação como palestrante em eventos corporativos e educacionais.

Redes sociais e a distorção da ideia de sucesso

Outro fator que impacta diretamente o bem-estar emocional, segundo Hilda, é a influência das redes sociais na forma como as pessoas percebem sucesso e fracasso. Para ela, essas plataformas funcionam como um espelho distorcido da realidade. “O que aparece nas redes costuma ser o resultado final: conquistas, carreiras e estilos de vida bem-sucedidos. O processo, o esforço, as dúvidas e as falhas permanecem invisíveis”, afirma.

Essa comparação constante com vidas editadas e filtradas intensifica sentimentos de insuficiência. “Muitas pessoas não se sentem fracassadas porque falharam, mas porque estão se medindo por parâmetros irreais”, explica.
Hilda destaca que as redes não são neutras. “Elas moldam expectativas, desejos e identidades. Usá-las de forma saudável exige consciência, senso crítico e a compreensão de que sucesso real é plural, processual e profundamente humano”, completa.

Cuidar da saúde mental é uma decisão estratégica

Para a especialista, a proteção da saúde mental no ambiente de trabalho não deve ser vista apenas como uma ação de bem-estar, mas como uma decisão estratégica das organizações. “É fundamental reconhecer que líderes também estão adoecendo”, afirma.

Ela aponta que existe uma expectativa silenciosa de força constante sobre quem lidera. “Gestores lidam com pressão por resultados, responsabilidade sobre pessoas e decisões complexas, muitas vezes sem espaço para pausa, escuta ou vulnerabilidade”, pontua.

Ambientes mentalmente saudáveis, segundo Hilda, são aqueles que respeitam limites, estabelecem metas realistas e promovem diálogo genuíno. “Proteger a saúde mental significa cuidar de todos — equipes e lideranças. Não há liderança saudável em ambientes adoecidos. E não há organizações sustentáveis sem humanidade”, conclui a terapeuta, que atualmente integra o casting de palestrantes da Ekoar Palestras.

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