Sua indústria está preparada para o El Niño? O risco pode estar no patrimônio que a empresa acredita ter protegido
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Com projeções indicando um El Niño excepcionalmente forte nos próximos meses, eventos climáticos voltam ao centro das decisões empresariais. Especialistas em gestão patrimonial alertam que seguro, inventário e valor real dos ativos precisam falar a mesma língua antes que um sinistro revele a diferença

Durante anos, o patrimônio de uma indústria pôde ser tratado como uma fotografia relativamente estável: máquinas, equipamentos, instalações e estruturas registrados na contabilidade e protegidos por uma apólice de seguros. O problema é que uma fábrica não permanece congelada no tempo. Equipamentos são substituídos, linhas de produção são ampliadas, ativos mudam de unidade, novas tecnologias entram na operação e investimentos milionários são incorporados. A apólice, porém, nem sempre acompanha esse movimento na mesma velocidade.
 Com a intensificação do El Niño, essa diferença ganha uma dimensão ainda mais estratégica. O boletim mais recente do Painel El Niño 2026-2027, elaborado por órgãos federais como INPE e INMET, aponta mais de 90% de probabilidade de um evento muito forte entre setembro e novembro. Para o período, a projeção indica chuvas acima da média em áreas do Sul e abaixo da média em parte do centro-norte do país.

A atualização da NOAA divulgada em setembro elevou ainda mais o sinal de alerta: o órgão norte-americano aponta mais de 90% de probabilidade de um El Niño muito forte durante a primavera e o verão de 2026-2027 e 75% de chance de que, entre outubro e dezembro, o episódio esteja entre os mais intensos registrados desde 1950.
Para a indústria, a discussão não se limita à meteorologia. Chuvas excessivas, alagamentos, vendavais, ondas de calor, incêndios e interrupções operacionais colocam à prova estruturas físicas e também a qualidade das informações que uma companhia mantém sobre o próprio patrimônio.

É nesse ponto que uma pergunta aparentemente simples pode se transformar em uma questão de milhões: se uma fábrica sofresse um sinistro hoje, a empresa saberia exatamente quanto vale aquilo que perdeu?

O risco que não aparece no balanço todos os dias

Segundo Fernando Mello, contador, empresário e CEO da Saraf Controle Patrimonial, uma das fragilidades está na distância que pode surgir, ao longo dos anos, entre a operação real, o controle patrimonial e os valores utilizados como referência para proteção dos ativos.

“Uma indústria é um organismo em movimento. Compra máquinas, transfere equipamentos, desativa linhas, amplia unidades e realiza investimentos continuamente. Se o controle patrimonial não acompanha esse ciclo, chega um momento em que a empresa possui uma realidade física, outra contábil e, eventualmente, uma terceira considerada para fins de seguro. O problema é que essa divergência pode permanecer silenciosa por anos e aparecer justamente quando ocorre um sinistro”, afirma.

Um incêndio parcial, por exemplo, não destrói apenas máquinas. Pode atingir instalações, equipamentos auxiliares e diferentes ativos que fazem parte de uma cadeia produtiva. Um alagamento pode comprometer bens adquiridos em períodos distintos e registrados sob critérios diferentes. Quando chega o momento de dimensionar o prejuízo, ter documentação consistente sobre existência, localização, características e valores dos ativos deixa de ser uma questão administrativa.

É por isso que o debate sobre seguro patrimonial começa antes da contratação ou renovação da apólice. Ele passa pela capacidade de uma companhia conhecer aquilo que pretende proteger.

“Seguro não deveria ser pensado isoladamente da gestão patrimonial. Antes de discutir quanto proteger, precisamos ter segurança sobre o que existe, onde está e quais informações sustentam aquele valor. Uma avaliação feita anos atrás pode não refletir mais uma planta que recebeu investimentos, substituiu equipamentos ou passou por expansão. O patrimônio mudou. A pergunta é se a informação mudou junto com ele”, explica Fernando.

Mudança climática também é uma discussão de governança
A Organização Meteorológica Mundial afirma que o El Niño está estabelecido e deve continuar se fortalecendo, com probabilidade próxima de 100% de persistência até fevereiro de 2027. A entidade ressalta que um evento muito forte pode alterar significativamente padrões de chuva e temperatura e favorecer extremos meteorológicos.
Isso não significa que toda indústria será atingida por um desastre, nem que um evento específico possa ser atribuído exclusivamente ao fenômeno. Significa, porém, que a gestão empresarial entra em um período no qual planejamento, prevenção e capacidade de resposta ganham relevância.

Para Andrea Mello, empresária e diretora executiva da Saraf, esse cenário exige uma mudança na própria maneira como a alta gestão enxerga patrimônio.

“Durante muito tempo, inventário foi visto por muitas empresas como uma atividade que precisava ser realizada para atender uma demanda contábil ou de auditoria. Mas patrimônio é capital. Estamos falando de recursos que a empresa investiu para produzir, crescer e gerar resultado. Quando essas informações não chegam de forma confiável à diretoria, a organização passa a tomar decisões estratégicas sobre uma base que pode não representar integralmente a realidade”, afirma.

A discussão ganha importância especialmente em companhias industriais de médio e grande porte, nas quais uma única operação pode concentrar milhares de ativos e sucessivos ciclos de investimento. Quanto mais complexa a estrutura, maior é a necessidade de integrar as áreas responsáveis por operação, contabilidade, patrimônio, riscos, seguros e tecnologia.

Andrea chama atenção ainda para um erro recorrente: considerar a organização patrimonial uma prioridade apenas depois que surge um problema.

“Gestão de risco não pode começar no dia do incêndio, do alagamento ou da auditoria. Quando o problema acontece, já não existe mais espaço para reconstruir com tranquilidade uma informação que deveria estar organizada anteriormente. Uma empresa preparada é aquela que consegue responder, antes de qualquer crise, o que possui, onde está, quanto representa e quais evidências sustentam essas informações”, diz.

Patrimônio precisa chegar à mesa da estratégia

O El Niño funciona, nesse contexto, como um teste para uma discussão maior. Empresas investem milhões na modernização de fábricas, automatização de processos e expansão de capacidade, mas o valor desses investimentos precisa continuar rastreável depois que os equipamentos entram em operação.

Um ativo registrado que deixou de existir, uma máquina transferida sem atualização, um equipamento substituído que permanece na base ou uma avaliação que não acompanhou mudanças relevantes podem parecer inconsistências pontuais. Multiplicadas por milhares de itens e vários anos, porém, deixam de ser um detalhe operacional.

Para Fernando, o avanço da tecnologia tornou menos justificável a existência de grandes distâncias entre o patrimônio físico e a informação utilizada pela gestão. A própria Saraf desenvolveu uma plataforma para inventário e gestão do ativo fixo, dentro de uma estratégia que combina pessoas, processos e tecnologia.

“O inventário não deveria terminar quando o relatório é entregue. No dia seguinte, a empresa continua movimentando ativos. Se não existe processo para acompanhar essas mudanças, a divergência começa novamente. Gestão patrimonial precisa ser contínua porque a operação é contínua”, afirma.

Em um cenário de maior exposição a riscos climáticos, a pergunta que deveria chegar aos conselhos, CFOs e gestores industriais não é apenas se a empresa possui seguro. É se ela possui informação patrimonial suficientemente confiável para saber o que, de fato, precisa proteger.

O custo de descobrir essa resposta antes de um sinistro é gestão. Descobri-la depois pode ser prejuízo.

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