Relações mais curtas, vínculos mais frágeis: por que está cada vez mais difícil sustentar conexões profundas

Relações mais curtas, vínculos mais frágeis: por que está cada vez mais difícil sustentar conexões profundas

Fernanda Leite
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Medo de dependência emocional, excesso de opções e baixa tolerância ao conflito ajudam a explicar o enfraquecimento dos vínculos afetivos e profissionais, avalia a psicóloga Laura Zambotto

Nunca foi tão fácil iniciar uma relação — e nunca foi tão difícil sustentá-la. O fenômeno, percebido tanto na vida afetiva quanto nas relações profissionais, tem sido objeto de análise de pesquisadores, psicólogos e especialistas em comportamento humano ao redor do mundo. A multiplicação de conexões rápidas contrasta com a fragilidade dos vínculos duradouros.

Dados do Instituto Ipsos, em estudo global sobre solidão e relações interpessoais, mostram que 43% dos adultos afirmam se sentir solitários mesmo estando em um relacionamento. No Brasil, números do IBGE indicam crescimento contínuo de lares unipessoais, que passaram de 12,2% em 2010 para mais de 18% em 2022, refletindo transformações profundas na forma como as pessoas constroem e mantêm vínculos.

Segundo a psicóloga Laura Zambotto, o problema não está apenas em mudanças sociais, mas em uma dificuldade emocional coletiva de sustentar o outro.

“Existe hoje uma grande confusão entre autonomia emocional e indisponibilidade afetiva. Muitas pessoas acreditam que ser maduro é não depender de ninguém, quando, na prática, todo vínculo humano exige algum grau de dependência emocional saudável”, explica.

A cultura do excesso de opções também exerce papel central nesse cenário. Estudos da American Psychological Association (APA) indicam que ambientes com múltiplas possibilidades de escolha reduzem a tolerância à frustração e aumentam a tendência ao descarte. Aplicativos de relacionamento e redes sociais reforçam a sensação de que sempre há algo melhor disponível, o que enfraquece o investimento emocional nas relações existentes.

“Quando tudo parece substituível, nada é verdadeiramente escolhido. Sustentar um vínculo exige atravessar desconfortos, frustrações e diferenças — algo que vai na contramão da lógica da rapidez e da substituição”, afirma Laura.

O sociólogo Zygmunt Bauman, traz a noção de “amor líquido”, uma forma de analisar as relações humanas que hoje estão tão flexíveis que tornam-se rapidamente descartáveis. Complementando, as relações são líquidas, pois assim como água, escorrem rapidamente pelas mãos e acabam por não se construir relações sólidas, estáveis e duradouras.

No ambiente de trabalho, o empobrecimento dos vínculos também gera impactos mensuráveis. Pesquisas da Gallup mostram que colaboradores que não desenvolvem conexões significativas no trabalho têm até 21% menos engajamento e maior risco de adoecimento emocional. Relações profissionais frágeis aumentam a sensação de isolamento, mesmo em equipes grandes e conectadas digitalmente.

Outro ponto crítico é a baixa tolerância ao conflito. Estudos em psicologia relacional indicam que a expectativa de relações sempre harmoniosas leva ao abandono precoce diante de qualquer frustração.
“Conflito não é sinal de relação tóxica. Muitas vezes, é sinal de vínculo real. A dificuldade atual está em diferenciar desconforto saudável de sofrimento”, pontua Laura.

A especialista observa ainda que o discurso contemporâneo do amor-próprio, embora importante, tem sido distorcido.

“Cuidar de si não significa evitar o outro. O excesso de autossuficiência emocional pode ser uma defesa contra a intimidade, não um sinal de maturidade”, afirma.

Para Laura, o enfraquecimento dos vínculos não indica menos desejo de conexão, mas mais medo de se envolver profundamente.

“As pessoas querem vínculos, mas temem a exposição emocional que eles exigem. Sustentar relações hoje virou um desafio psicológico, não apenas social.”

A reconstrução de vínculos mais consistentes, segundo ela, passa por uma mudança de perspectiva: menos idealização, menos substituição e mais disposição para atravessar processos reais.

“Relações profundas não são leves o tempo todo. Elas exigem presença, negociação e permanência. E isso é algo que nossa cultura desaprendeu a sustentar”, conclui.

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