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Por Marcio Renzo – Psicanalista e hipnoterapeuta.

Tenho observado ao longo dos anos como os termos “psicopata” e “sociopata” viram, na mídia e nas conversas, rótulos que assustam e simplificam demais. Na minha prática, prefiro desmontar esses termos e olhar para o que realmente importa: as funções psíquicas que estão fragilizadas, a história de vida e as relações que moldaram cada pessoa.

Vemos cada dia mais em noticiários a presença desses rótulos, normalmente relacionados a crimes, pessoas perigosas e que, de certa forma, incompatíveis com a vida em sociedade.

Para mim, “psicopatia” costuma apontar para um modo de funcionamento em que há pouca dor moral, frieza afetiva e um uso calculista dos outros. Já o que chamamos de “sociopatia” traz quase sempre um carimbo de história: traumas, negligência, laços precários. Mas não trato isso como uma divisão hermética — vejo um espectro em que traços biológicos e experiências sociais se misturam.

O que me parece crucial é não reduzir o indivíduo ao rótulo. É diferente dizer “fulano é psicopata” e dizer “fulano apresenta déficits na empatia afetiva e grande dificuldade em tolerar culpa”. A segunda formulação abre espaço para intervenção; a primeira tende a encerrar a conversa e a humanização.

Na clínica, minha primeira prioridade é a avaliação cuidadosa: como essa pessoa aprendeu a lidar com raiva, vergonha e frustração? Consegue pensar sobre seus próprios sentimentos e sobre os sentimentos dos outros (mentalização)? Quais defesas psíquicas usa para não sentir dor? Essas perguntas orientam o que proponho em terapia.

Quanto ao tratamento, acredito em combinar perspectivas. A psicanálise e as abordagens psicodinâmicas são valiosas quando há disponibilidade para um trabalho mais profundo sobre a história emocional e os modelos internos de relação. Porém, muitas vezes é necessário integrar intervenções mais estruturadas — treino de controle de impulsos, terapia da mentalização, apoio familiar — especialmente quando há risco imediato de danos.

Tenho sido realista sobre limites: pacientes com traços marcantes de insensibilidade e manipulação costumam ter baixa adesão a tratamentos longos. Nesses casos, contratos terapêuticos claros, limites firmes e uma equipe interdisciplinar são indispensáveis. Para perfis com história de trauma, o foco inicial costuma ser a estabilização afetiva e a reconstrução de confiança relacional — e aí vemos progresso verdadeiro.

Não existe remédio mágico. Medicamentos podem ajudar sintomas associados (ansiedade, depressão, impulsividade), mas não “curam” a falta de empatia ou padrões relacionais profundos. Da mesma forma, medidas punitivas isoladas — prisões sem reabilitação — raramente transformam trajetórias de vida.

Por fim, minha posição ética é outra: devemos resistir ao sensacionalismo. Chamar alguém de “monstro” impede compreensão e reduz as chances de cuidados eficazes. Prefiro investir em prevenção, reparo de vínculos, políticas sociais que minimizem traumas precoces e em formação clínica que saiba lidar com esses casos sem juízos simplistas.

Se eu tiver de sintetizar: entenda a pessoa além do rótulo, combine psicoterapia profunda com intervenções práticas quando necessário, mantenha limites claros e trabalhe em equipe. Só assim transformamos risco em possibilidade de mudança — nem sempre dramática, mas frequentemente significativa.

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