Iniciativa do Hospital Anchieta começa por alunos do ensino médio em Taguatinga Norte e busca identificar riscos precocemente
O Hospital Anchieta tem levado para dentro das escolas uma estratégia estruturada de prevenção ao suicídio e promoção da saúde mental entre adolescentes. Por meio do projeto Anchieta na Comunidade, passou a atuar diretamente no ambiente escolar, com foco na identificação precoce de sinais de risco e no acompanhamento dos estudantes.
A iniciativa, desenvolvida pelo Grupo Kora Saúde, está sendo aplicada inicialmente com alunos do 2º ano do ensino médio do Centro de Ensino Médio de Taguatinga Norte (CEMTN). A proposta é acompanhar os estudantes ao longo do tempo, promovendo intervenções que contribuam para um ambiente mais saudável e acolhedor.
Para o coordenador da linha de cuidado da psiquiatria do Hospital Anchieta, a escolha do público e do ambiente é estratégica. “A adolescência é uma fase de grande vulnerabilidade emocional. Muitas vezes, os sinais de sofrimento não são percebidos em casa, mas aparecem na escola, por meio de mudanças de comportamento, queda no rendimento, irritabilidade ou isolamento”, explica.
Rastreamento e acompanhamento especializado
O projeto leva para os estudantes uma adaptação do Protocolo Lotus, utilizado no hospital para prevenção ao suicídio. Todos os alunos passam por uma avaliação inicial com uma escala que mede o risco para comportamento suicida, permitindo identificar diferentes níveis de vulnerabilidade.
A partir desse levantamento, são realizadas intervenções com acompanhamento psiquiátrico, psicoterapêutico e ações de psicoeducação. As atividades envolvem não apenas os alunos, mas também professores e familiares, que passam a integrar a rede de cuidado.
“Não se trata apenas de um atendimento pontual. É um trabalho contínuo, que envolve avaliação, acompanhamento e educação em saúde mental. O objetivo é reduzir riscos e oferecer suporte antes que situações mais graves aconteçam”, destaca o especialista.
Além da prevenção ao suicídio, o projeto também aborda transtornos como ansiedade, depressão, TDAH, insônia e dificuldades emocionais comuns nessa faixa etária.
Ambiente escolar como espaço de prevenção
O coordenador pontua que a escola foi escolhida como ponto central da iniciativa por ser um espaço onde os adolescentes convivem diariamente e onde é possível identificar alterações comportamentais com mais facilidade, como irritabilidade, isolamento, queda no rendimento e mudanças emocionais.
Além disso, é um ambiente estratégico para atuar na prevenção de situações como bullying e dificuldades de convivência, permitindo uma intervenção mais ampla que envolve não apenas o indivíduo, mas também as relações e a construção de um espaço mais saudável para todos.
Dados reforçam cenário de atenção
A importância de iniciativas como essa é reforçada por dados recentes da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), divulgada nesta semana pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. No Brasil, 18,5% dos adolescentes relataram já ter sentido que a vida não valia a pena, enquanto 32% afirmaram ter tido vontade de se machucar de propósito nos últimos 12 meses.
A pesquisa também aponta que mais de um quarto dos estudantes sofre bullying de forma recorrente, o que evidencia o impacto das relações escolares na saúde mental dos jovens.
Expectativa de impacto e prevenção
O projeto prevê uma nova avaliação dos estudantes ao longo do acompanhamento, permitindo medir a evolução dos índices de risco e o impacto das ações realizadas, com a expectativa de reduzir sinais de sofrimento psíquico, prevenir comportamentos de risco e fortalecer o cuidado com a saúde mental dos adolescentes.
“Quando conseguimos identificar precocemente e oferecer suporte adequado, aumentamos as chances de proteger esses jovens e evitar que situações de risco evoluam. A prevenção é sempre o melhor caminho”, conclui Fabio Leite.