Dizem que o Brasil não é para amadores. Discordo. O Brasil é, antes de tudo, um país que profissionalizou o improviso e deu status acadêmico ao jeitinho. O chamado “Caso Banco Master” não é apenas um escândalo financeiro — é uma espécie de ópera bufa institucional, dessas em que o maestro rege com uma mão e, com a outra, assina contratos de consultoria.
Há fraudes que nascem pequenas, tímidas, quase envergonhadas. Outras já vêm ao mundo com tapete vermelho, buffet liberado e lista VIP. O Caso Master, ao que tudo indica, pertence à segunda categoria. Não se trata apenas de números frios ou balanços criativos — estamos diante de uma dramaturgia complexa, com personagens espalhados pelos três poderes, figurinos caros e enredos que fariam inveja a qualquer roteirista de streaming.
O investidor comum, embalado pela promessa quase maternal do FGC — essa entidade que virou espécie de “colchão moral” do sistema financeiro — dormia tranquilo. Afinal, no Brasil criou-se a cultura do risco sem consequência, do lucro sem culpa e da garantia sem leitura de rodapé. Enquanto isso, nos bastidores, a engrenagem girava com a elegância de um cassino em noite de gala: festas, patrocínios, lobby, consultorias… uma verdadeira micareta institucional.
Se Nelson Rodrigues estivesse vivo, talvez dissesse que não se trata de fraude — é apenas o brasileiro sendo, mais uma vez, fiel à sua vocação para o excesso. Aqui, até o ilícito precisa ter charme social, networking e buffet volante.
E eis que surge o elemento brasiliense da trama: o BRB, banco público, patrimônio simbólico da capital da República, transformado em peça central de um tabuleiro que mais parece jogo de ilusionismo. A estratégia — dizem os que acompanham os bastidores — envolvia colocar imóveis públicos como garantias de operações cuja solidez lembraria um castelo de cartas em dia de vento. Alguns desses imóveis, ao que se comenta, não sustentariam nem a garantia de um financiamento de geladeira, quanto mais operações de alta complexidade.
A pergunta que ecoa nos corredores é simples, quase infantil: tentava-se evitar uma federalização? Uma intervenção do Banco Central? Ou apenas ganhar tempo — essa moeda invisível que, no Brasil, vale mais que lastro financeiro?
Como em toda boa novela, surge também o personagem que diz: “Eu avisei.” A denúncia inicial, atribuída ao então pré-candidato ao governo do DF, Ricardo Capelli, adiciona tempero político ao enredo. Não é apenas uma investigação — é uma disputa narrativa. No Brasil, a verdade raramente anda sozinha; ela vem sempre escoltada por interesses eleitorais, versões estratégicas e coletivas de imprensa cuidadosamente coreografadas.
O mais fascinante no Caso Master não é apenas a possibilidade de fraude. É o ecossistema que a permite florescer. Porque fraude, no Brasil, não é erva daninha — é planta ornamental, regada por relações institucionais, adubada por influência e podada por conveniência.
Há algo de profundamente rodrigueano nisso tudo. Nelson dizia que “toda unanimidade é burra”. No sistema financeiro-político brasileiro, toda garantia absoluta é, no mínimo, suspeita. Quando todos parecem tranquilos demais, é porque alguém já saiu pela porta dos fundos com a prataria.
E assim seguimos, como espectadores de uma crônica em tempo real. Comédia para uns, tragédia para outros — sobretudo para quem acreditou que rentabilidade alta com risco baixo era política pública e não roteiro de estelionato gourmet.
O Caso Master — ou Caso Vorcaro, como alguns já preferem chamar — ainda promete muitos capítulos. CPI, operação policial, delações, relatórios técnicos que ninguém lerá e, claro, indignações televisionadas que durarão exatamente até o próximo escândalo.
Até lá, o brasileiro segue fazendo o que faz de melhor: assistindo a tudo com ironia, pagando a conta com resignação e repetindo, como quem comenta o clima:
— “Rapaz… isso ainda vai dar filme.”
E dará. Com trilha dramática, fotografia sombria e personagens inspirados em fatos reais — porque, no Brasil, a realidade continua sendo o gênero mais criativo da ficção.
Se o horóscopo chinês diz que é o Ano do Cavalo, convém segurar firme nas rédeas. Porque, por aqui, quando o cavalo passa selado, quase sempre já tem alguém vendendo a sela… com garantia do FGC.
