O caso do Orelha não expõe um crime isolado, mas o abismo entre negligência e responsabilidade na forma como a sociedade trata os cães
A carta era simples, poucas linhas, escritas à mão, deixadas dentro da casinha onde ele costumava descansar. Falava de saudade, de cuidado, e de um pedido de desculpa. Pedia perdão em nome de pessoas que não souberam proteger. Não descrevia a violência, a ausência já dizia tudo.
O gesto, registrado depois da morte do cão comunitário Orelha, comoveu o país porque não era um manifesto. Era um luto silencioso, um reconhecimento tardio de que aquele animal, tratado como parte da paisagem por tantos, era, na verdade, parte da vida.
O caso do Orelha não é um desvio isolado nem um episódio excepcional. Ele escancara como a responsabilidade humana é o fator decisivo que define se um cão será protegido ou exposto, cuidado ou abandonado à própria sorte. É nesse ponto que a conexão com o trabalho de especialistas como Sebastien Florens se torna legítima. Não para comentar o crime ou explicar o inexplicável. Mas para mostrar que existem dois mundos convivendo ao mesmo tempo, tratando o cão de formas radicalmente opostas.
De um lado, o cão exposto à negligência, à violência gratuita, à ausência absoluta de responsabilidade humana. De outro, o cão visto como vida sob tutela, treinado com método, protegido por protocolos e jamais colocado em risco por descuido. Esse segundo universo é o da segurança preventiva com cães de detecção, onde o princípio básico é claro: o animal nunca paga pelo erro do homem.
Para Sebastien, especialista internacional em detecção de explosivos com cães, essa lógica não é discurso. É regra operacional. “Se o ambiente não é seguro, o cão não entra. Se o treinamento não está validado, a operação é suspensa. Quando há dúvida, o cuidado prevalece. O método existe justamente para eliminar improviso e exposição desnecessária”, relata.
Essa visão lança luz sobre um ponto desconfortável. O que aconteceu com o Orelha não foi um acidente. Foi o resultado extremo de uma cadeia de falhas humanas. Falha de cuidado, falha de limite, falha de responsabilidade. E isso não começa no ato final. Começa muito antes, na naturalização da violência, na ideia de que um cão “aguenta”, de que não sente, de que vale menos.
Tratar a morte do Orelha como um desvio isolado é uma forma de aliviar a consciência coletiva. Mas a repetição de casos de maus-tratos no país mostra que o problema é estrutural. Existe uma cultura que ainda naturaliza a ideia de que animais são descartáveis.
A carta deixada na casinha do Orelha funciona como um contraponto poderoso porque revela o oposto dessa lógica. “Ela mostra vínculo, afeto. E é justamente por isso que emociona”, comenta Sebastien.
No campo da segurança preventiva, há uma ideia que ajuda a compreender esse contraste: O silêncio. Quando um grande evento termina sem incidentes, o silêncio é sinal de sucesso. Significa que o risco foi neutralizado antes de se tornar ameaça, que o planejamento funcionou, que o cuidado foi eficaz e a segurança prevaleceu.
No caso do Orelha, o silêncio teve outro significado. Foi o silêncio da imprudência, da crueldade. Dois silêncios opostos, produzidos por escolhas humanas igualmente opostas. Essa comparação serve para lembrar algo essencial. Cães não falham. Humanos falham, sempre.
Quando um cão é bem tratado, protegido e respeitado, isso não é heroísmo. É o mínimo. Quando um cão é violentado, isso não é impulso juvenil, brincadeira ou erro pontual. É falha ética, é responsabilidade não assumida.
Orelha não era só um cão comunitário. Era um teste cotidiano de humanidade. A vida sob nossa guarda não pode ser relativizada, afinal nenhum cão é só um cão.
