Mesmo com qualificação, refugiadas e migrantes trans encontram barreiras para ingressar no mercado formal de trabalho

Em comparação com homens, mulheres ocupam três vezes menos vagas com emprego sinalizado no processo de interiorização; entre população trans, relatos de preconceito são constantes

Desde que chegou ao Brasil, há cinco anos, a venezuelana Desirée sonha em ter um emprego formal. Para isso, tem realizado cursos e treinamentos em diferentes áreas – finanças, recursos humanos, marketing digital. Ela conta que, em vários momentos, seu currículo despertou a atenção em processos seletivos, mas o interesse parece mudar de rumo no momento da entrevista. Mulher trans, ela tem se mantido com dificuldades com as poucas diárias de faxina que consegue fazer em Boa Vista (RR).

“Às vezes, bato nas portas, mas por ser uma mulher trans venezuelana, é muito difícil encontrar um trabalho. Como não trabalho formalmente, também é difícil para mim me manter aqui”, conta. Desirée faz parte das estatísticas que comprovam as diferenças de oportunidades. Segundo pesquisa realizada por ONU Mulheres, Fundo de População da ONU (UNFPA) e a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e conduzida pelo IPEAD, as mulheres refugiadas e migrantes têm três vezes menos oportunidades que os homens de saírem de Roraima para outros estados brasileiros com uma vaga de emprego sinalizada – uma das modalidades do processo chamado de interiorização. Entre mulheres trans, soma-se o preconceito à essa escassez de oportunidade.

“Faz muito tempo que estou lutando aqui em Boa Vista, esperando uma boa resposta, e não tenho conseguido. Me falaram que em São Paulo há mais oportunidades. Graças ao apoio de outras mulheres trans, consegui me estabilizar um pouco aqui em Roraima. Eu gosto daqui, mas quero ir para São Paulo tentar outras oportunidades”, planeja.

Assim como milhares de pessoas, Desirée quer permanecer no Brasil, onde consegue fazer gratuitamente o tratamento hormonal, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS) – que não era possível na Venezuela. Ela também reforça que, diferentemente do que viveu em seu país natal, ela se sente mais protegida, apesar do preconceito.

“Apesar de ter algumas dificuldades, a lei aqui nos apoia. Já tive problemas com pessoas, fiz denúncias e sou respeitada. Eu me sinto protegida no Brasil”, afirma. “Eu ser trans me traz muitas dificuldades para encontrar um trabalho. Mas eu sou assim, me gosto assim, e vou seguir lutando por um bom emprego. Sou muito segura sobre mim mesma e, se tenho que seguir adiante, ou viajar, vou fazer. Mas sempre vou seguir em pé, com a cabeça erguida por ser uma mulher trans.”

E completa com um pedido: “Meu conselho para as pessoas que têm preconceito é que primeiro conheçam a pessoa, não nos vejam como alguém de outro planeta. Somos seres humanos, temos sentimentos, temos sonhos; deem a nós a oportunidade de mostrar que somos boas pessoas.”

Apoio a mulheres refugiadas e migrantes – Na tentativa de oferecer oportunidades mais dignas e igualitárias a mulheres refugiadas e migrantes, em especial venezuelanas, ONU Mulheres, ACNUR e UNFPA, com o financiamento do Governo de Luxemburgo, desenvolvem o programa conjunto Moverse – Empoderamento Econômico de Mulheres Refugiadas e Migrantes no Brasil. Iniciado em agosto de 2021, o programa tem ações previstas até dezembro de 2023 envolvendo mulheres refugiadas e migrantes, sociedade civil, empresas, instituições e governos nos temas e ações ligadas a trabalho decente, proteção social, empreendedorismo e enfrentamento da violência contra mulheres.

O programa conjunto apresenta metas ousadas, entre elas o desenvolvimento de ao menos 15 planos de ação para o empoderamento de mulheres refugiadas e migrantes por empresas e organizações apoiadas pelo programa, além da capacitação de 15 mil mulheres venezuelanas refugiadas e migrantes em temas de empreendedorismo, trabalho autônomo, educação financeira, com acesso a oportunidades no mercado laboral e beneficiadas com transferências financeiras. O programa conjunto visa alcançar mais de 3 mil mulheres e meninas venezuelanas refugiadas e migrantes no apoio ao acesso a serviços de resposta à violência de gênero. E, junto a organizações e governos, pretende fortalecer as capacidades de 6 mil profissionais de instituições envolvidas na resposta humanitária para prevenir e responder casos de exploração, abuso e assédio sexual.

Para ler o texto completo no site do ACNUR, clique aqui.

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