Com quase três décadas de atuação, iniciativa reúne propostas para preservação da memória, proteção dos territórios, liberdade religiosa e ampliação do acesso às políticas culturais
Com uma trajetória de quase três décadas dedicada à cultura afro-brasileira, Marcelo Fritz vem desenvolvendo uma agenda voltada à valorização dos Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana e ao fortalecimento de iniciativas que preservam memória, ancestralidade e identidade cultural.
Carioca, suburbano e com forte atuação comunitária, Fritz iniciou sua caminhada profissional como camelô e feirante, antes de se tornar radialista, jornalista e produtor cultural. Em 1998, fundou o ICAPRA — Instituto Cultural de Apoio e Pesquisa às Tradições Afro, organização que se tornou uma das principais bases de seu trabalho junto às comunidades.
Ao longo dos anos, também esteve à frente de iniciativas como o Atabaque de Ouro, Jornal ICAPRA e Encontro das Nações, promovendo ações de valorização das tradições afro-brasileiras e ampliando espaços para artistas, lideranças tradicionais, comunicadores e produtores culturais.
A experiência acumulada nos territórios deu origem a um conjunto de propostas que busca enfrentar dificuldades ainda presentes no cotidiano das comunidades tradicionais. Entre as medidas defendidas estão a disponibilização de espaços públicos para atividades culturais e formativas, capacitação técnica para elaboração de projetos e prestação de contas e apoio à regularização documental de terreiros e instituições.
Outro ponto é a ampliação do acesso a editais e mecanismos de financiamento. A proposta considera que a existência de recursos públicos, por si só, não garante a participação das comunidades quando barreiras técnicas e burocráticas dificultam o acesso.
O projeto prevê ainda a criação de Centros de Referência para os Povos de Terreiro, especialmente em regiões de maior vulnerabilidade social. Os espaços teriam como finalidade oferecer acolhimento, orientação, formação e aproximação com diferentes serviços públicos.
Também está entre as propostas a criação de um Fundo Estadual de Cultura direcionado às comunidades tradicionais, contemplando investimentos em infraestrutura, memória, patrimônio, comunicação, formação, sustentabilidade e transmissão dos conhecimentos ancestrais às novas gerações.
A agenda não se restringe aos povos de terreiro. Capoeiristas, jongueiros, comunidades quilombolas, povos indígenas, povos ciganos e outros grupos tradicionais também aparecem entre os segmentos contemplados pela iniciativa.
Liberdade religiosa e enfrentamento ao racismo religioso são outros eixos do trabalho desenvolvido por Fritz, que defende maior reconhecimento das tradições de matrizes africanas e proteção de seus territórios, símbolos, práticas e conhecimentos.
Para Marcelo Fritz, preservar essas manifestações exige ações contínuas que ultrapassem a realização de eventos pontuais e garantam estrutura para quem mantém esse patrimônio vivo nos territórios.
“Cultura não é apenas evento. Cultura é território, trabalho, memória, identidade e direito.”