Cultura
da urgência ainda predomina no Brasil e faz com que problemas simples evoluam
para tratamentos complexos e mais caros
No Brasil, ainda é comum ouvir
a frase “vou ao dentista quando precisar”. O problema é que, na maioria das
vezes, “precisar” significa dor. E quando a dor aparece, quase sempre o
problema já evoluiu.
Uma pesquisa realizada pela
Associação Brasileira da Indústria de Dispositivos Médicos (Abimo), em parceria
com o Conselho Federal de Odontologia (CFO), revela que 32% dos brasileiros não
vão ao dentista para realizar avaliação odontológica — uma ferramenta
preventiva que deveria fazer parte da rotina de cuidados com a saúde. O dado
ajuda a explicar por que tantos atendimentos ainda acontecem em caráter
emergencial.
A lógica parece simples:
evitar consultas periódicas para economizar. Mas, na prática, o resultado
costuma ser o oposto. Procedimentos que poderiam ser resolvidos com uma limpeza
ou restauração simples evoluem para tratamentos de canal, cirurgias ou reabilitações
complexas.
Para o cirurgião-dentista
Marcos Pereira Villa-Nova, essa cultura reativa custa caro, financeiramente e
biologicamente. “Quando o paciente procura atendimento apenas na presença de
dor, geralmente estamos lidando com um quadro avançado. A odontologia
preventiva é sempre menos invasiva, menos traumática e mais acessível”,
explica.
Cáries não surgem de um dia
para o outro. Doenças periodontais também não. São processos silenciosos que
evoluem ao longo do tempo. A dor é, na maioria das vezes, um sinal tardio. Além
do impacto direto nos dentes, a negligência pode afetar o organismo como um
todo. Infecções bucais estão associadas a processos inflamatórios sistêmicos e
podem agravar condições como diabetes e doenças cardiovasculares.
Marcos defende uma visão mais
ampla da odontologia, construída ao longo de sua experiência clínica. “Assumi
um ditado que um professor falava muito e o carrego desde então: a boca não vem
andando sozinha para o consultório. Analisar o paciente como um todo e não só a
boca é essencial para um diagnóstico mais assertivo”, afirma.
Essa abordagem integrada
permite identificar hábitos, padrões alimentares, níveis de estresse e
condições sistêmicas que influenciam diretamente a saúde bucal. O bruxismo pode
estar ligado à ansiedade. Problemas gengivais podem refletir descontrole metabólico.
A odontologia moderna deixou de ser isolada.
Do ponto de vista financeiro,
o impacto é claro. Uma consulta preventiva periódica custa significativamente
menos do que um tratamento de canal associado à colocação de coroa. Sem falar
no tempo afastado do trabalho, no desconforto e na complexidade do procedimento.
“A prevenção é investimento,
não gasto. Quando acompanhamos o paciente regularmente, conseguimos intervir
cedo, preservar estrutura dental e evitar tratamentos extensos”, conclui
Marcos. Ir ao dentista apenas quando dói pode parecer economia no curto prazo.
Mas, no longo prazo, o custo é sempre maior, para o bolso e para a saúde.
Sobre
Marcos Pereira Villa-Nova é
cirurgião-dentista formado pela Universidade Estácio de Sá. Possui ampla
experiência clínica no Brasil e nos Estados Unidos, com atuação em atendimento
humanizado e planejamento de tratamento personalizado. Ao longo da carreira,
participou de congressos internacionais, incluindo o Yankee Dental Congress
2025, em Boston, e acumula experiência em gestão estratégica e coordenação de
novos pacientes em clínicas odontológicas.
