Enquanto cresce o uso de inteligência artificial em hospitais e consultórios, profissionais e instituições aguardam a definição de regras claras para garantir segurança, ética e inovação no atendimento
A inteligência artificial (IA) já deixou de ser uma promessa distante, e hoje é uma realidade crescente no setor de saúde. De sistemas que ajudam no diagnóstico de doenças até ferramentas que otimizam o tempo dos profissionais, o uso da IA se espalha por hospitais, clínicas e consultórios. Mas, na mesma medida em que avança, esse movimento exige uma discussão urgente: como regulamentar essas tecnologias, de forma equilibrada e segura?
Em 2025, a expectativa é de que o Brasil finalmente avance com uma legislação específica para o uso da IA em saúde. A proposta em tramitação no Congresso – o Projeto de Lei 2.338/2023 – tem o objetivo de criar diretrizes técnicas e éticas, classificando os riscos de cada tipo de sistema e exigindo mais transparência e monitoramento constante.
A ideia é garantir que, mesmo com o uso de tecnologias sofisticadas, o cuidado com o paciente e a segurança dos dados estejam sempre em primeiro lugar. Enquanto isso, o uso da IA continua crescendo.
Segundo a pesquisa TIC Saúde 2024, feita pelo Cetic.br, com unidades de saúde públicas e privadas, apenas 4% das instituições usavam IA oficialmente, mas, entre os médicos, esse número subia para 17%. A pesquisa, feita até setembro de 2024, também revelou que o principal uso da tecnologia era empregado no apoio a pesquisas (69%) e no auxílio a relatórios médicos (54%).
Além dos números brasileiros, uma pesquisa internacional da Medscape, realizada entre janeiro e março de 2024, com mais de 3 mil médicos da América Latina, apontou que 84% dos profissionais brasileiros acreditam que a IA precisa ser regulada com regras claras.
Outro dado reforça a importância do debate: de acordo com o levantamento global da Ipsos/Google, publicado em janeiro de 2025, 54% dos brasileiros já usaram IA generativa, como o ChatGPT – um índice acima da média mundial, que é de 48%.
A presença cada vez maior da IA levanta um ponto crucial: como as instituições devem se preparar para esse novo cenário? Especialistas indicam que a chave está na adoção de boas práticas. Isso inclui auditorias frequentes nos sistemas utilizados, treinamento das equipes de saúde para lidar com essas ferramentas e uma governança clara dos dados e algoritmos. Mais do que aderir à tecnologia, será preciso usá-la com responsabilidade.
Outro ponto importante é a proteção dos dados dos pacientes. A regulamentação deverá seguir os princípios da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), garantindo que informações sensíveis sejam tratadas com o devido cuidado. Isso será fundamental para evitar abusos e aumentar a confiança da população nos sistemas baseados em IA.
Mercado em transformação
A entrada da IA no setor também está mudando o perfil dos profissionais da saúde. Já não basta ter conhecimento técnico apenas sobre o corpo humano: é preciso entender, mesmo que minimamente, como funcionam os sistemas inteligentes que ajudam a tomar decisões clínicas. Habilidades como leitura de dados, pensamento crítico e trabalho colaborativo com outras áreas, como engenharia, estatística e ciência da computação, ganham cada vez mais espaço.
Nesse cenário, a faculdade de medicina continua sendo o principal caminho para quem deseja seguir carreira na área, mas o perfil do profissional que se forma está mudando. O médico de hoje – e ainda mais o de amanhã – precisa estar preparado para atuar em um ambiente no qual a tecnologia será uma aliada constante.
O que esperar de 2025
Com o avanço das discussões no Congresso, o ano de 2025 pode marcar um ponto de virada para a saúde no Brasil. A expectativa do setor é que o país encontre um equilíbrio entre inovação e segurança. Instituições como a Anvisa, que já usam IA em processos internos para acelerar a análise de medicamentos, terão papel importante na adaptação às novas regras.
Mais do que acompanhar a inovação, será preciso garantir que ela seja implementada de forma ética, responsável e centrada no paciente. O desafio está lançado, e o próximo ano promete ser decisivo para que a inteligência artificial encontre seu espaço definitivo na saúde brasileira, com regras claras, profissionais preparados e instituições comprometidas com um futuro mais eficiente e seguro.