O fim da escala 6×1 coloca empresas e profissionais diante de um desafio que vai além da redução da jornada semanal. A mudança exige repensar processos, produtividade, tecnologia e modelos de gestão, em um cenário no qual o equilíbrio entre vida pessoal e profissional ganha cada vez mais espaço nas decisões de carreira.
Hoje, no Brasil, são 38,6 milhões de trabalhadores em jornadas superiores a 40 horas semanais, de acordo com um levantamento do Ministério do Trabalho e Emprego. Com a recém aprovada Emenda Constitucional nº 141/2026, a partir de 15 de dezembro de 2026, começa a transição para dois dias de descanso semanal e jornada máxima de 42 horas. O limite passa a ser de 40 horas após 14 meses da promulgação, sem redução salarial. Há previsão excepcional de escalas diferentes mediante negociação coletiva.
Dentroi deste contexto, especialistas defendem que o momento pede uma reflexão sobre os custos de reorganizar o trabalho e os impactos de manter estruturas que já enfrentam dificuldades para atrair e reter talentos. “A preocupação com os custos da mudança é legítima, especialmente entre pequenos empresários, que precisam conciliar despesas, operação e rentabilidade. No entanto, ela defende que a análise também considere os prejuízos associados à manutenção do modelo atual. Vagas que permanecem abertas por longos períodos, pedidos de demissão frequentes e o chamado presentismo, quando o profissional está fisicamente no trabalho, mas não consegue se envolver plenamente nas atividades, também representam custos para as organizações”, defende Adriana Vidal, mentora e especialista em carreiras.
A transformação ocorre em um contexto de mudança nas prioridades dos trabalhadores. Após a pandemia, a busca por equilíbrio entre vida pessoal e profissional ganhou relevância, aproximando o bem-estar das preocupações tradicionalmente associadas à remuneração. Adriana destaca que empresas interessadas em atrair e manter bons profissionais precisam considerar essas expectativas na construção de suas propostas de trabalho. Nesse cenário, a jornada deixa de ser apenas uma questão de horas cumpridas e passa a integrar uma discussão mais ampla sobre qualidade de vida, engajamento e capacidade de entregar resultados.
Para a especialista, a experiência brasileira de redução da jornada semanal de 48 para 44 horas, consolidada pela Constituição de 1988, oferece um precedente importante para compreender a dimensão da mudança. “Uma eventual transição para uma jornada de 40 horas semanais, porém, não deve significar apenas a redistribuição das mesmas tarefas em menos tempo. O desafio será revisar a maneira como o trabalho é organizado, identificar gargalos, eliminar retrabalho, adequar as equipes às funções e incorporar recursos tecnológicos capazes de simplificar processos e melhorar a eficiência”, acrescenta.
A adaptação, portanto, exige que as empresas também estejam dispostas a rever práticas de gestão. Em vez de cobrar apenas mais flexibilidade dos profissionais, será necessário desenvolver modelos operacionais compatíveis com uma nova organização da jornada. “A questão central é encontrar um caminho que concilie sustentabilidade financeira e qualidade de vida. A reflexão que fica para empregadores e trabalhadores é como reorganizar o trabalho para que as empresas mantenham seus resultados sem que isso aconteça à custa da vida pessoal de quem as faz funcionar”, finaliza a especialista.