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Pode até parecer uma previsão catastrófica cujo intuito é atrapalhar as políticas públicas do Inep, mas não é o caso. A afirmação do título é só a constatação derivada de todos os fatos relacionados à aprendizagem e à vida escolar desde o início da pandemia.

O cenário é desolador, sobretudo, para quem depende da escola pública.

Desde os primeiros meses da pandemia, pesquisas já indicavam uma predisposição, sem precedentes, grande ao abandono escolar bem como à abstenção da prova do ENEM. Infelizmente, foi o que ocorreu. O desestímulo que provocou a evasão escolar resvalou para a prova do Exame. A abstenção foi recorde.

No ENEM digital, uma prova sem sentido por não ser dinâmica/adaptativa, tal como exige a tecnologia de dados, a abstenção foi ainda maior por quem decidiu optar pela modalidade de prova, uma vez que o desestímulo superou a prova tradicional tendo em vista o cenário caótico por que passa o país, tudo isso aliado à sensação de despreparo dos candidatos.

A situação no Amazonas é ainda mais grave do que a média nacional. A altíssima gravidade de cada uma das ondas de Covid no estado colocou a saúde pública e as necessidades básicas por sobrevivência em um lugar ainda mais central do que em outros estados do país para as famílias e para os agentes públicos. Neste sentido, no Amazonas, teremos uma abstenção de cerca de 80% no segundo dia de prova do ENEM, consequência do ambiente local e também consequência das políticas públicas não implantadas para recuperar a aprendizagem perdida com a pandemia.

O Amazonas tem um moderno centro de mídias na secretaria de estado da educação. Este centro foi responsável por projetar um ex-secretário de estado para ser ministro do governo Temer e, depois, secretário de educação do estado de São Paulo. Tem uma equipe dedicada, competente, mas pelo visto sob o comando de um governador pouco interessado.

Nos últimos dias, um grupo de mais de 50 professores se uniu para uma ação on-line que pudesse ajudar pelo menos parte destes alunos a se reerguer e voltar para o jogo, independente do seu desempenho no ENEM. Os professores da iniciativa estão entre os mais conhecidos dos Brasil e somam milhões e milhões de seguidores, inscritos e matriculados em redes sociais e em plataformas de educação. Nunca tantos atores diferentes deste mundo das teleaulas tinham se juntado para alguma ação.

A expectativa era de que o governo local se engajasse e, no mínimo, usasse suas redes internas de comunicação para que todos que poderiam ser beneficiados pelo projeto pudessem ter conhecimento da iniciativa. A resposta prática do governo do Amazonas foi bem decepcionante, não se engajou como deveria e não atuou com a vontade necessária para que seus habitantes pudessem ter algum alento educacional nesta situação de pademia.

Além das aulas com os mais de 50 professores o projeto, foram ofertadas milhares de bolsas de estudo em diversas plataformas de educação on-line para todos os alunos que se interessassem, mas nem mesmo a totalidade destas bolsas puderam ser distribuídas a contento.

Uso o caso desta iniciativa como termômetro de como o estado do Amazonas, e imagino alguns dos outros estados também, tem agido no sentido de recuperar o que se perdeu para estudantes de escolas públicas na pandemia.

O Amazonas, mesmo na caótica situação em que se encontra, tem um governo que se dá ao luxo de virar as costas para seus alunos que vão prestar o ENEM. O adiamento das datas de aplicação deu uma grande possibilidade de o estado ajudar seus alunos, ou de pelo menos aderirem a projetos que se dispuseram a isto. A opção foi não fazer nada, e a consequência disso vai aparecer em algo entre 70% e 85% de abstenções na próxima quarta-feira, segundo dia da prova do ENEM.

Alguns estados cogitaram, em 2020, estabelecer um quarto ano do Ensino Médio, não obrigatório, para trazer de volta para à vida escolar milhões de estudantes que desistiram dela nestes últimos meses. Ainda é pouco para tudo que precisa ser feito para que a pandemia não tenha como uma das consequências o aumento do abismo de acúmulo de proficiências entre alunos de diferentes classes sociais ou agora com o surgimento de diferenças entre alunos de diferentes gerações e/ou idades. Mas nem o mínimo tem sido feito, não vi mais nenhum governador falar neste tal de quarto ano do ensino médio.

O Educador Mateus Prado é especialista em ENEM, colunista, palestrante e assessor educacional em escolas, cursos e empresas de tecnologia.

centralrbn

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