Da arquitetura tradicional aos sistemas cognitivos: como a IA está mudando o papel do arquiteto de software

Da arquitetura tradicional aos sistemas cognitivos: como a IA está mudando o papel do arquiteto de software

Fernanda Leite
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* Por Leandro dos Reis Romanelli

Durante décadas, o papel do arquiteto de software esteve associado à definição de camadas, escolha de padrões e desenho de estruturas estáveis, pensadas para durar anos. Arquiteturas monolíticas bem organizadas, posteriormente evoluindo para microsserviços, sempre partiram de uma premissa comum: o comportamento do sistema era previsível, controlável e essencialmente determinístico. A inteligência estava no desenho, e a execução seguia regras previamente definidas.

Esse modelo começa a ser tensionado à medida que sistemas passam a incorporar componentes de inteligência artificial capazes de aprender, adaptar-se e produzir resultados que não são totalmente previsíveis no momento do design. Segundo a McKinsey, mais de 70% das empresas globais já utilizam ou testam soluções baseadas em IA em processos críticos, o que desloca a arquitetura de software de um exercício estrutural para um problema sistêmico mais amplo, que envolve dados, modelos, inferência e governança.

Na prática, isso significa que a arquitetura tradicional, orientada a fluxos fixos e contratos rígidos, deixa de ser suficiente. Sistemas cognitivos não apenas executam regras, eles interpretam sinais, ajustam comportamentos e tomam decisões probabilísticas. Como arquiteto, passo a lidar menos com a pergunta “qual padrão aplicar?” e mais com “como garantir que esse sistema continue compreensível, auditável e confiável ao longo do tempo?”.

Um dos primeiros impactos dessa mudança está na centralidade dos dados. Em arquiteturas clássicas, dados eram consequência da aplicação. Em sistemas baseados em IA, os dados passam a ser o próprio motor do sistema. Qualidade, rastreabilidade, versionamento e contexto dos dados tornam-se decisões arquiteturais tão relevantes quanto a escolha entre filas ou APIs. Sem isso, o sistema aprende errado, degrada silenciosamente e compromete decisões de negócio.

Outro ponto crítico é a quebra do determinismo. Ao incorporar modelos de machine learning ou LLMs, o arquiteto deixa de projetar apenas caminhos de execução e passa a projetar limites, salvaguardas e mecanismos de observabilidade. Não se trata apenas de saber se o sistema está no ar, mas de verificar se ele continua tomando boas decisões. Métricas tradicionais de performance não dão conta desse desafio, entram em cena indicadores de desvio de dados, acurácia contextual e impacto operacional.

Esse cenário também altera a relação entre arquitetura e negócio. Sistemas cognitivos não são neutros, eles refletem objetivos, vieses e prioridades embutidos nos dados e nos modelos. O arquiteto passa a atuar como tradutor entre estratégia empresarial e capacidade técnica, ajudando a definir até onde a automação faz sentido, quais decisões devem permanecer humanas e como escalar inteligência sem perder controle. Não é mais apenas uma função técnica, mas estrutural dentro da organização.

Do ponto de vista organizacional, a adoção de IA expõe fragilidades em arquiteturas excessivamente acopladas. Modelos evoluem rápido, APIs mudam, versões precisam coexistir. Arquiteturas orientadas a eventos, pipelines assíncronos e contratos mais flexíveis deixam de ser tendências e passam a ser pré-requisitos. Sem isso, qualquer tentativa de incorporar inteligência gera mais dívida técnica do que valor.

Por fim, o papel do arquiteto de software se desloca do desenho de sistemas estáticos para a orquestração de ecossistemas vivos. A preocupação central deixa de ser apenas “como construir” e passa a ser “como esse sistema vai evoluir, aprender e ser governado”. Em um ambiente onde a IA amplia capacidades, mas também riscos, arquitetura deixa de ser um artefato e se consolida como um processo contínuo de tomada de decisão.

A transição da arquitetura tradicional para sistemas cognitivos não elimina fundamentos clássicos, ela os tensiona. Princípios como separação de responsabilidades, simplicidade e clareza continuam válidos, mas agora precisam conviver com incerteza, adaptação e aprendizado contínuo. É nesse equilíbrio que o arquiteto redefine seu papel, menos desenhista de estruturas e mais guardião da coerência do sistema ao longo do tempo.

Sobre Leandro dos Reis Romanelli

Leandro dos Reis Romanelli é engenheiro de software com mais de quinze anos de experiência em engenharia e arquitetura de sistemas. Foi aluno da Universidade Federal do ABC (UFABC) e é Técnico em Informática pela Escola Senai Suíço-Brasileira.

Ao longo da carreira, liderou equipes e projetos nacionais e internacionais, sendo responsável pelo desenho de arquiteturas, modernização de sistemas legados e implementação de pipelines de entrega contínua. Atua principalmente na construção de soluções escaláveis, integração entre sistemas e governança técnica, com foco em eficiência operacional e manutenção de longo prazo.

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