Por Sebastian Schrötel – Vice-Presidente Sênior de IA, Automação e Tecnologia da TeamViewer
A corrida pela Inteligência Artificial continua no centro da indústria de tecnologia, com empresas competindo a todo vapor para criar sistemas mais rápidos e inteligentes para impulsionar seus negócios. A vantagem competitiva clara, sustentada por algoritmos avançados e volumes crescentes de dados, é como um prêmio para o mercado corporativo.
Mas algo importante mudou nos últimos anos.
A IA está ajudando empresas a migrarem de uma postura reativa para uma atuação proativa. A chamada IA Agêntica (Agentic IA, em inglês; ou ainda IA Autônoma, em português) deve se tornar comum em breve, com 61% das organizações globais já se preparando ou explorando sua adoção. Ao invés de reagir a problemas assim que surgem, as equipes podem identificá-los antecipadamente e agir antes que se agravem, transformando a rotina de ‘apagar incêndios’ em prevenção.
Os impactos já são visíveis. Só na manufatura, por exemplo, funcionários economizam em média 10 horas por mês com o uso da IA. Além disso, avanços em análise de dados, aprendizado de máquina e inteligência conectada ajudam as companhias a lidar melhor e com maior rapidez com questões rotineiras que antes atrasariam processos — desde a detecção remota de anomalias até o diagnóstico de falhas de software, sem necessidade de presença física.
Da capacidade à responsabilidade
Se antes a atenção estava na velocidade e na capacidade, agora a confiança desponta como verdadeiro diferencial em se tratando de IA. Com sistemas cada vez mais autônomos, surgem perguntas diretas: quem está no controle, como as decisões são tomadas e quem responde quando algo dá errado?
Isso é especialmente relevante em ambientes operacionais. Se um sistema de IA aponta uma falha na linha de produção e recomenda uma correção ou automatiza parte de um fluxo de trabalho, os funcionários precisam ter confiança de que essas recomendações são confiáveis — e que existe um caminho claro para intervir, se necessário.
A IA subiu de patamar: ela já não apenas identifica problemas, mas começa a moldar respostas e influenciar decisões, aprendendo continuamente – o que torna a supervisão humana ainda mais essencial, uma vez que cabe às pessoas definir regras e limites e garantir que os sistemas operem dentro de parâmetros claros, sobretudo quando as decisões têm consequências reais.
Por que a confiança impulsiona a adoção
O fato é que a clareza e o controle impactam diretamente o uso prático da IA.
Quando as equipes de trabalho entendem como um sistema chega às suas recomendações, e sabem que podem intervir, a confiança aumenta — e a adoção também. Em operações, isso significa confiar em um alerta gerado por IA ou seguir uma correção sugerida sem hesitar.
Sem essa confiança, o progresso trava. De acordo com um relatório da TeamViewer, 32% dos funcionários relatam que soluções de IA testadas falharam e que as lacunas de conhecimento persistem. O fato é que os sistemas são tecnicamente capazes, mas se os usuários não confiarem ou se hesitarem em agir, o valor não se concretiza.
A diferença aparece na escala. Organizações que acertam nesse ponto expandem a IA para fluxos centrais, acelerando decisões, reduzindo paradas e aumentando a consistência entre equipes. Já as que não conseguem permanecem em fase piloto, com impacto limitado.
É a confiança que transforma capacidade em adoção, e adoção em valor mensurável de negócio.
Construindo confiança nos sistemas de IA
A confiança precisa ser projetada desde o início, e não adicionada depois. Vamos elencar alguns pontos importantes.
- Visibilidade: os funcionários devem entender por que uma recomendação foi feita, seja uma anomalia detectada ou uma ação automatizada;
- Responsabilidade: trilhas de auditoria e registros devem mostrar quais decisões foram tomadas, quando e com base em quais dados — especialmente em ambientes regulados e de alta segurança;
- Supervisão humana: pontos de validação garantem que pessoas possam confirmar ou corrigir decisões, mantendo o controle sem renunciar à automação.
Essas medidas asseguram que a IA apoie os funcionários ao invés de substituí-los, ampliando seu papel.
Regulamentação eleva o patamar
A regulação, por sua vez, acelera essa mudança. Com as novas exigências da nova lei AI Act da União Europeia, que entrará em vigor a partir de agosto de 2026 e garante que os sistemas de Inteligência Artificial colocados no mercado europeu sejam seguros, confiáveis e respeitem os direitos fundamentais, as organizações terão de cumprir requisitos mais rígidos de risco, transparência e responsabilidade.
Isso, porém, não deve ser encarado como barreira, e sim como sinal de ‘para onde o mercado caminha’. Clientes, parceiros e funcionários já esperam padrões mais altos na forma como a Inteligência Artificial é desenvolvida e aplicada.
As empresas que se anteciparem estarão mais bem posicionadas – não apenas para cumprir regras, mas para se diferenciar. Em setores regulados, como serviços financeiros e manufatura, a confiança será cada vez mais decisiva na escolha de fornecedores e na construção de parcerias duradouras.
O impacto nos negócios
À medida que o entusiasmo inicial dá lugar à maturidade, o sucesso será definido pela confiança — pela construção de sistemas de IA que as pessoas compreendam, utilizem com segurança e incorporem ao trabalho diário.
Isso será ainda mais relevante com a evolução para modelos mais ‘agentic’, nos quais os sistemas não apenas apoiam decisões, mas passam a executá-las. Nesse contexto, a confiança determinará até onde a IA será integrada aos fluxos de trabalho e quanta responsabilidade lhe será atribuída.