Especialista em gestão de projetos explica a importância da agenda e destaca oportunidades para iniciativas de acolhimento, prevenção e conscientização integrarem a posição das organizações de forma contínua no combate à violência à mulher
O Agosto Lilás, campanha nacional de conscientização pelo fim da violência contra a mulher, reforça anualmente a importância da prevenção, do acolhimento e da ampliação da rede de proteção às pessoas do sexo feminino em situação de vulnerabilidade ou violência. Segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, os casos de feminicídio continuam em crescimento e, no ano de 2025, foi registrado 1.517 vítimas, um aumento de 4,0% em relação ao ano anterior. Isso mostra que a violência de gênero é um grande ponto de atenção na sociedade. No entanto, em muitas empresas, o tema ainda apresenta dificuldades para compor processos contínuos, que vão além de palestras, campanhas internas e ações de comunicação. Uma realidade que pode ser mudada, a partir de algumas iniciativas.
Para especialistas, o modelo de sinalização de campanhas mensais, embora importante para sensibilizar colaboradores, precisa de reforços e atenção para enfrentar um problema estrutural e permanente, que atravessa o ambiente corporativo, mas vai muito além dele.
O anuário ainda mostra que para cada feminicídio registrado no país houve, em média, 502 registros de ameaça, 182 registros de lesão corporal dolosa em contexto de violência doméstica, 84 registros de descumprimento de medida protetiva de urgência e 79 registros de perseguição. Esses dados evidenciam que o enfrentamento à violência contra a mulher exige ações permanentes e articuladas entre poder público, sociedade civil e instituições privadas. A demanda por reforço por parte de empresas nessa corrente é, portanto, evidente.
Dentro das empresas
Nesse contexto de violência recorrente, cresce a discussão sobre o papel das empresas na construção de ambientes mais seguros e no desenvolvimento de políticas de prevenção, acolhimento e combate contra essa problemática. Para Pauline Lopes, head de projetos da GT7, unidade de negócio do Grupo Cartão de TODOS, a principal diferença entre uma campanha de conscientização e um projeto estruturado está na capacidade de gerar transformação ao longo do tempo e nas iniciativas permanentes, que podem ser acompanhadas por meio de grupos focais, trocas com recorrência e indicadores de acompanhamento de projetos.
“Campanhas, palestras, ações educativas e canais de escuta têm um papel importante para gerar conscientização. Eles são o primeiro sinal de alerta e ajudam a disseminar um contexto de precaução e prevenção. Porém, sozinhos, não promovem mudanças sustentáveis. Um projeto estruturado exige planejamento, protocolos de acolhimento, investigação imparcial das denúncias e mecanismos que garantam que comportamentos inadequados sejam efetivamente enfrentados. Assim, as iniciativas deixam de ser temporárias e passam a representar um compromisso permanente com um ambiente seguro e respeitoso. Mais do que se engajar em qualquer causa, uma empresa ou organização precisa cumprir o papel de educar, criar contexto, formar cultura e acompanhar as iniciativas que vão sustentar seus discursos”, afirma a executiva.
Do discurso à estratégia
Segundo a especialista, um dos principais desafios enfrentados pelas organizações é fazer com que temas ligados à diversidade, inclusão e proteção das mulheres deixem de depender exclusivamente do engajamento individual de gestores ou colaboradores e passem a integrar a estratégia do negócio. Em uma empresa, a gestão de projetos desempenha um papel fundamental ao estruturar objetivos claros, cronogramas, definição de responsabilidades, governança e indicadores capazes de medir a efetividade das ações. Não basta, portanto, disseminar mensagens, é preciso garantir ações afirmativas, se possível, acompanhadas por um comitê de responsáveis e demonstração clara de implantações.
Embora o Agosto Lilás concentre a mobilização nacional sobre o tema, Pauline ressalta que o verdadeiro desafio começa quando o calendário de campanhas termina. “A maior dificuldade não é iniciar um projeto, mas transformá-lo em prioridade organizacional. Muitas situações de violência ou discriminação acontecem de forma velada. Dentro de empresas, isso também ocorre quando mulheres têm suas ideias desconsideradas, são ignoradas ou julgadas por preconceito, antipatia ou até rivalidade. Por isso, é importante manter na organização um compromisso permanente com a vigilância para o combate de qualquer discriminação estruturada ou violência, moral, física ou piscológica, contra a mulher. Acreditamos que o sucesso desses projetos só existe graças ao comprometimento de nossas lideranças, gestores e de uma governança permanente que sempre assegure ações efetivas diante de possíveis comportamentos inadequados”, explica.
Na avaliação da gestora, essa mudança também passa por compreender que iniciativas relacionadas à proteção das mulheres não podem ser responsabilidade exclusiva de áreas como os Recursos Humanos. Segundo Pauline Lopes, ter lideranças atentas, preocupadas com as questões e que disseminem essa postura entre colaboradores, é fundamental, pois isso define prioridades, influencia a cultura organizacional e demonstra, por meio de atitudes concretas, quais comportamentos são aceitáveis ou não. Quando isso acontece, o projeto passa a ser um compromisso de toda a instituição.
Um compromisso permanente
Além de ser uma questão de responsabilidade social, o tema também está relacionado ao desempenho das organizações. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) destaca que ambientes livres de violência e assédio contribuem para o aumento da produtividade, redução do absenteísmo e da rotatividade, fortalecimento da reputação corporativa e maior satisfação de colaboradores e clientes. Em contrapartida, organizações que negligenciam esses fatores estão mais expostas à perda de talentos, queda no engajamento das equipes, aumento de afastamentos, conflitos internos e custos decorrentes da baixa produtividade e de investigações relacionadas a episódios de violência e assédio.
A própria OIT estima que mais de uma em cada cinco pessoas no mundo já sofreu algum tipo de violência ou assédio no ambiente de trabalho, seja de natureza física, psicológica ou sexual, evidenciando que o problema não está restrito à esfera privada, mas também faz parte das relações profissionais. E assim como qualquer iniciativa estratégica, projetos voltados ao enfrentamento da violência contra a mulher precisam ser acompanhados por indicadores capazes de demonstrar sua efetividade.
Para Pauline, os principais parâmetros que devem ser analisados são o grau de confiança das colaboradoras nos canais de acolhimento, o tempo de resposta e resolução das ocorrências registradas, a percepção de que mulheres possuem espaço para participar das decisões e apresentar ideias e a redução de relatos relacionados a comportamentos discriminatórios ou violentos. Para ela, esses indicadores permitem que a empresa vá além do cumprimento de agendas simbólicas e avalie se as iniciativas realmente contribuem para fortalecer um ambiente de trabalho mais seguro, inclusivo e respeitoso.
No caso da violência doméstica, os reflexos também chegam às empresas. Estudos internacionais mostram que colaboradoras vítimas de violência apresentam maior propensão ao absenteísmo, atrasos, dificuldades de concentração e redução do desempenho, gerando impactos financeiros e operacionais para as organizações. Esse é um cenário complexo, para o qual os mecanismos de escuta, de relacionamento e de proteção ao colaborador, quando implantados, costumam surtir resultados, que são vantajosos para a colaboradora e também para a empresa.
Diante desse cenário diverso em demandas, a gestora defende que as empresas tratem as campanhas sazonais de enfrentamento à violência contra a mulher como momentos de alerta, como pontos concentrados de reflexão para a implantação (ou revisitação) de uma estratégia corporativa permanente, que tenha continuidade e impacto.
. “Para implantar projetos com esse alcance, o primeiro passo é compreender as reais necessidades e dores das mulheres da empresa. A partir desse entendimento, é possível estruturar um programa com objetivos claros, responsáveis definidos, indicadores de desempenho, orçamento e uma governança que assegure o acompanhamento contínuo das ações. É sempre importante tratar esse tema como uma pauta estratégica, que abraça campanhas pontuais, mas também que mantém mecanismos perenes. Como em qualquer projeto corporativo de qualquer ordem, a proteção da mulher demanda esforços permanentes, constância, acompanhamento e análises”, conclui.
Sobre a GT7
A GT7 é uma Unidade de Negócios do Grupo TODOS Internacional, focada em estratégias de marketing para potencializar o crescimento acelerado e sustentável dos negócios do ecossistema TODOS. A empresa tem como um de seus pilares estratégicos o cuidado com as pessoas, promovendo políticas de inclusão, bem-estar e desenvolvimento humano que estimulam a construção de um ambiente de trabalho saudável e equilibrado.