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Rio deve enfrentar grande epidemia de chicungunha neste verão, alerta especialista

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A explosão de casos de chicungunha no Rio este ano já configura um quadro epidêmico, mas a situação deve piorar ainda mais com a chegada do verão, atingindo níveis sem precedentes. O alerta é do infectologista Rivaldo Venâncio da Cunha, coordenador de Vigilância em Saúde e Laboratórios de Referência da Fiocruz, que também vê forte risco de epidemias da doença em Minas Gerais, Mato Grosso e Pará.

De acordo com os dados mais recentes da Secretaria estadual de Saúde do Rio fornecidos pela Fiocruz, até a 47ª semana epidemiológica deste ano (31 de dezembro de 2017 a 24 de novembro de 2018) foram registrados 32.002 casos prováveis de chicungunha no estado, número 736% superior ao observado no mesmo período do ano passado, 4.425. Com a elevação da temperatura no verão, porém, aumenta a proliferação de mosquitos e, consequentemente, a incidência de doenças transmitidas por eles, incluindo dengue, zika e febre amarela, que também preocupam.

– A expectativa das pessoas que têm acompanhado o deslocamento e a evolução destas doenças no Brasil é de que neste verão alguns estados, em especial Rio de Janeiro, Minas Gerais, Mato Grosso e Pará, tenham problemas sérios com uma elevação gigantesca de casos delas, principalmente chicungunha, contra qual boa parte da população está mais suscetível por ainda não ter anticorpos – diz Rivaldo. – É um cenário preocupante de uma provável epidemia sem precedentes.

Diante disso, lembra o infectologista, diagnósticos e tratamentos corretos para cada uma dessas doenças são fundamentais. Assim, conta, nas próximas semanas será publicado e distribuído para profissionais de saúde da rede pública de todo país um novo guia de vigilância em saúde para dengue, zika, chicungunha e febre amarela.

Fruto de meses de discussão de uma comissão de cerca de 60 especialistas da qual Rivaldo fez parte, o guia traz pistas nos sintomas que deverão ajudar em muito os profissionais de saúde a diferenciá-las nos diagnósticos clínicos, bem como quais são os tratamentos indicados e que devem ser evitados nas fases agudas de cada uma delas. Isso porque, destaca o infectologista, diferentemente dos manuais de diagnóstico disponíveis atualmente, baseados em informações tiradas da literatura científica, o novo guia incorpora toda a experiência acumulada por médicos, enfermeiros e outros profissionais no contato com estas doenças no país nos últimos anos.

– Muitas vezes estas infecções são assintomáticas, mas quando os sintomas se manifestam nem sempre é fácil diferenciar uma da outra no diagnóstico clínico – explica. – Então o novo guia traz toda a experiência do Brasil nesta área, com a contribuição de profissionais de saúde que vivenciaram isso no seu cotidiano, atendendo dezenas de milhares de casos destas doenças nos últimos anos.

É o caso, por exemplo, de dengue e chicungunha. Ambas doenças, quando manifestas, são caraterizadas por febres altas, dores articulares e, por vezes, náuseas e vômitos. Na dengue, porém, estes sintomas costumam passar em cerca de uma semana, enquanto na chicungunha eles podem se estender por semanas ou mesmo meses. Além disso, as dores nas articulações da chicungunha em geral são acompanhadas de edemas (inchaços) ausentes ou muito discretos na dengue.

– Assim, embora a lista de sintomas possa ser muito parecida, há diferenças na intensidade e duração que permitem um diagnóstico mais preciso – diz Rivaldo.

Experiência que também está na raiz do alerta relativo à chicungunha. De acordo com o infectologista, a literatura científica em que se baseavam os manuais de diagnóstico anteriores indicava que a doença apresentava algum tipo de manifestação clínica entre 90% e 95% dos casos.

– Mas nossa experiência e estudos têm demonstrado que só 55% a 60% dos infectados pelo vírus da chicungunha apresentam estas manifestações clínicas características da doença, o que está permitindo que ela vá se espalhando pelo país silenciosamente – relata.

Já com relação à febre amarela, o temor é a repetição do surto de 2017, que terminou com 777 casos confirmados e 261 mortes. Segundo Rivaldo, apesar do pânico despertado na época, os índices de cobertura vacinal nas regiões afetadas e nas de nova recomendação da vacina, como o estado do Rio, não ficaram nem perto dos esperados e desejados em muitos lugares, deixando caminho aberto para a doença voltar a atacar pessoas.

– Em que pese os esforços para que a população se vacinasse, nossos dados mostram que não houve a procura que se esperava, com muitas localidades com índices de cobertura vacinal ainda muito baixos, de 40% a 50%, quando deveriam estar em torno de 90% – aponta. – E como em tese o vírus continua circulando em mosquitos e primatas da Região Sudeste, o risco para humanos não vacinados é muito alto.

Outra fonte de preocupação é que as esperadas epidemias de doenças transmitidas por mosquitos neste verão vão coincidir com as trocas de governo nos estados, o que pode levar à interrupção ou enfraquecimento de programas de prevenção e combate aos vetores que, ainda que temporários, acontecerão justamente quando são mais necessários. Por isso também que a Fiocruz, em conjunto com diversas outras instituições, promoverá uma série de eventos para analisar o atual cenário e debater estratégias contra essas doenças em todo país.

O primeiro deles, em parceria com a Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro, o Conselho dos Secretários Municipais de Saúde do estado, a Associação dos Prefeitos e Municípios do Rio de Janeiro e a Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, está marcado para esta quarta-feira, das 8h30 às 16h, no Hotel Novo Mundo, no Flamengo, com outros previstos para acontecer em Salvador (BA), Fortaleza (CE), Cuiabá (MS), Belo Horizonte (MG), Manaus (AM), Porto Velho (RO) e Teresina (PI). Apesar de direcionados primariamente a gestores, os eventos também estão abertos para o público em geral.

– Precisamos alertar as autoridades e a população que o mosquito não vai esperar os novos governos se assentarem para começar a atuar – resume. – É um processo que está em curso. E embora a epidemia vá ser impossível de evitar, temos que tomar medidas imediatas para amenizar o sofrimento da população, como com o combate contínuo aos vetores e melhor atendimento no sistema de saúde pública, no que o novo guia vai ser fundamental.

Fonte: OGlobo

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